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sábado, 19 de setembro de 2009


CANTARES DOS BÚZIOS

Meu coração é um búzio
onde em perpétuo rumor
se alonga a minha saudade
e murmura o meu amor.

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917.


Remexer nos livros e ter o prazer de encontrar, pela mão do poeta, a palavra feita escultura, uma das mais belas.
Tardes soalheiras, de retiro e reencontro.
Momentos para repousar e vaguear na solidão boa acompanhada da palavra, da luz e da brisa quente que sopra aqui fora.
Afinal, o verão ainda não foi embora.


domingo, 15 de junho de 2008

Afonso Lopes Vieira, Sem titulo, em catálogo/separata de COLÓQUIO Letras n.º 159/160
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Écloga I
Interlocutores – Lereno e Umbro

Numa noite sem lua,
por negras horas mortas, enquanto na cabana solitária
Umbro ouvia os segredos do silêncio
e o murmúrio tão próximo do Lísio
que corria na sombra,
ao pastor esquecido e desterrado
de súbito aparece
a sombra do zagal
Ilustre e melodioso
entre os de Portugal,
que a Vilante branquista cantara
na cantiga imortal.

Lereno

Voltas enfim aos nossos campos belos,
ao doce vale do Lísio,
Umbro, que há tanto tempo
tu por outros trocaras
para aos nossos formosos esquece-los;
voltas à terra verde, outeiro e vale,
que teus avós amaram,
onde fortes, cantando, trabalharam,
e que este caro rio
de cristalino fio
rega tão fino e claro.
Porém triste te vejo
matando os tristes dias,
que para ti começam à tardinha,
apenas co’o desejo
de matá-los depressa,
e pálido estendendo as mãos geladas
para lume perpétuo de fogueira
que mais que o sol aqueça.

Zagal porque te calas e te encerras
num silêncio de morte
e foges ao convívio dos pastores?
Não amas a beleza destas terras?
Ou não tens olhos para ver zagalas?
Já não há prados, musica e amores?

[…]

Porque vives sozinho e sempre absorto?
se muito bem fizeste
em deixar os amigos mentirosos
aos amigos fieis descoroçoas?
Ah! que os deuses propícios
te mandem um sorriso
e ali se há-de então ver que não és morto.

[…]

Ergue, pois, em voz clara,
que já viste um dia,
o louvor destes campos, destas águas;
se tens mágoas, com elas tece um canto,
se te alivia o pranto
desata-o corajoso;
e aprende sobretudo a amar a terra,
e bem que nunca passa,
que nos dá pão – a graça,
e vinho – essa alegria!

Umbro

Ó Loreno, pastor que tanto admiro
e este prados ilustras com teu nome,
em cujas mãos, tangendo
a melodia azul das pastorais
ficou a frauta rústica de Almeno,
e pastor mais famoso entre os pastores!
Não me fales de amores!
Um dia vi o amor – era medonho:
tinha olhos convulsos de anjo bêbedo
e a mascara do ódio.
Não me fales da terra – é fome e ruína,
o pão bendito? Dá-se aos animais!...
A alegria do vinho?
Ele é luto e pobreza!
E a própria abastança
da portuguesa terra
faz morrer dia a dia,
em pálida agonia
que lhes apaga os olhos,
as crianças de fome que as consome
Juntamente co’o o ranho e co’os piolhos!...

Loreno, despe o trajo
da tua pastoral
e vai, sem arrabil,
como homem apenas,
ver a miséria negra desses campos
onde já não há danças nem cantares
e onde pesa a morrinha melancólica
dos apagadores lares.

- Olha a nossa Bucólica!...

Põe os olhos no chão dessas ribeiras
- por onde os lindos pés
alvíssimos e nus
de Vilante passaram –
e lembra-te que o próprio
chão que sempre foi nosso
e não é desde agora,
pertence ao novo deus que nos devora;
já não é de ninguém, o deus o come,
as cruíssimas coimas
do maioral dos gados lastimosos
o fez perder aos poucos
aos pobres que choravam,
- em vez de irem em cata
dos cajados nodosos!...

Onde estão os cajados portugueses
que algum dia se ergueram
em defesa da honra e da justiça?
Marmeleiros lustrosos
e castanhos robustos,
onde estais, onde jaz adormentada
vossa força elegante
em justiceiros giros,
que não sais de novo
contra quem – o verso é de Os Lusíadas
A despir e roubar o pobre povo?

Ó doce chão da Pátria
vê-lo-ás empenhado em mãos de usura;
já todo o Portugal,
do extremo norte ao sul
(menos a parte inchada de fartura),
pendurado se vê do Prego imenso
e do Prego pendendo se balança
do Minho verde ao Algarve azul!...

Ó casais de Família
que dos avós se herdaram
e que seus netos mais que a vida adoram!
Mimos claros de pobre,
seu orgulho e sustento,
seu gosto e mantimento
e seus lindos amores,
cousa a que tanto quere
que não inveja campos de senhores
nem por eles trocara
a leira que lhe torna
a alma ditosa e avara.
- Vê-los agora à venda e desdenhados,
por vil preço ofertados,
leira amada e perdida!
e às portas dos casais
o lavrador arranca fundos ais
por essas terras cheias
do seu profundo amor,
e sente que lhe chupam sangue e suor
pelas sagradas veias!...

[…]

Olha os rebanhos trágicos que emigram
para campos longínquos,
abandonando os lares
e metendo-se aos mares.
Deixando silenciosas e desertas
sem lar com lume ou boca com cantiga
as aldeias natais
até que o desamparo e a fome nova
os torne a remeter à fome antiga!

Vai ver por essas terras
as mil hospedarias
onde aposentam, para que mais goze,
a grã Ceifeira nossa
que nos ceifa de quarto em quarto de hora,
de sorte que uma guerra
perpétua que devora.
- Senhora (assim lhe dizem)
não façais cerimónia, a casa é vossa
e a fome que aí vai dá festa grossa
ao famoso apetite que nos tendes! –
e olha como definha
à mingua de ar, de luz, de pão e de água,
de comer, de lavar-se, de estimar-se,
de poder respirar alegre fundo
e se torna medrosa ou engelhada
esta gente de Luso
já de forças tão belas
que deu mundo ao mundo
e ao céu novas estrelas.

[…]

Se peregrino fores
também hás-de encontrar
gordíssimos pastores
que te dirão que o prado resplandece
de searas, de vinhas e de flores;
com semblantes risinhos
e ânimos confortados
hão-de mostrar-te altíssimas cabanas
e nas ribeiras os bateis armados
(palácios e batéis
feitos de fome e lágrimas),
mas a esse responde:
- Levanta mil palácios, mil castelos,
se lhe não pões espírito lá dentro
tudo isso é caliça;
arma nas águas mil batéis armados;
se não lhe pões espírito lá dentro tudo isso é sucata!

Vai-te, Loreno ilustre!
vai-te e não me apoquentes,
fora de aqui com a écloga, zagal!
De mentira é que morre Portugal
e tu próprio és mentira:
deixa-me e leva a pastoral e a lira!

[…]

Afonso Lopes Vieria, Éclogas de Agora, Edição do autor, 1935.



Écloga II

sexta-feira, 21 de março de 2008

MNL, 21.03.2008


Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.


Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu;
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhe deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
em naus, erguida, levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar!

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade,
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os aléns
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde,
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar.

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma


21 de Março
Dia Mundial da Floresta, Dia da Árvore, Dia Mundial da Poesia