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domingo, 27 de janeiro de 2008

Numa das minhas pesquisas na net encontrei este artigo que, vindo de um católico, apostólico, romano do "aparelho", não deixa de ser surpreendente.

A homossexualidade não pode ser discutida apenas em termos políticos e jurídicos, sustentou o teólogo dominicano Mário Botas esta terça-feira, 20, à noite, no Palácio de Fronteira em Lisboa, numa pregação integrada no ciclo "Sermão e Sermões da Oratória Lisboeta", promovido pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. "Os discursos mais aprovadores e justificadores", disse, criticando as posições do Bloco de Esquerda , "tendem a anular sistematicamente a diferença.

Não basta a tolerância. É preciso aceitar os homossexuais tal qual são. Com o drama de não serem como os outros". Porque, concluiu, "nunca ninguém conseguiu viver em paz com esta condição".

Vestido de negro mas sem qualquer sinal exterior indicando a ordem em que professa, Mário Botas, 32 anos, apresentou-se à assistência (não mais de duas dezenas de pessoas, maioritariamente do sexo feminino) disposto a não alimentar quaisquer equívocos. O seu sermão seria uma "meditação pessoal, em voz alta", marcada pelo drama de muitos amigos e de outros que o procuram e se sentem excluídos da Igreja. Mas queria que ficasse claro que a sua Igreja ("que é a Católica, Apostólica, Romana"), no essencial "não foi infiel à verdade". Na leitura que faz da Bíblia, a verdade doutrinária assenta no princípio de que a realização do amor se funda na diferença sexual e se realiza no casal. "Não vejo como poderia a Igreja dizer algo diferente, hoje ou amanhã".

O sermão deste frade alentejano que se converteu aos 17 anos e se prepara para ensinar Teologia na Universidade Católica em Lisboa, situar-se-á algures entre o extremo repressivo dos tempos em que "qualquer coisa que dava prazer ou era pecado ou fazia mal à saúde" e a dominante hodierna em que "faz tudo parte da paisagem".

Verbo a soltar-se amiúde do texto base do sermão, cigarro atrás de cigarro quando o debate começou, o teólogo dominicano sublinha o "sentimento de injustiça" que invade aquele que um dia se descobre "a viver com um certo destino". A família, a escola, o emprego encarregar-se-ão de lhe tornar presente esta "anormalidade". Ninguém, contudo, pode ser condenado "pelo facto de ser aquilo que é".

"O Deus vivo que criou toda a gente, só criou o mundo para alguns?", pergunta-se Mário Botas. Sendo cada corpo humano um templo habitado por Deus, "são em vão, esses corpos [diferentes]?".

O dominicano repete uma das ideias chave do seu sermão: "Como cristão, não me sinto capaz de culpabilizar pessoas por aquilo que elas vivem". E recorda, a propósito, que quando em França - país onde ensinou durante cinco anos Teologia Moral Fundamental - ainda os homossexuais eram internados em hospitais psiquiátricos, já a Igreja dizia que "a homossexualidade não é doença, mas condição".

Ao contrário da regra clássica, o pregador deste "sermão do presente" não polvilha as frases de citações latinas. Prefere-lhes a indicação de bibliografia que vai da própria Bíblia a autores "malditos" como Céline, e apresenta vários exemplos de escritores cuja homossexualidade coexistiu com intervenções públicas de feroz homofobia.

Antes do final do sermão - terminado com o "Amen" da tradição e as palmas de uma assistência que ainda ficará longos minutos a fazer-lhe perguntas e a pedir-lhe esclarecimentos - repete a pergunta: "Se o Deus vivo não dá ao amor uma residência vigiada, quem de nós poderá dizer que o amor de Deus não vai eclodir diante do amor de um homem por um homem ou de uma mulher por uma mulher?".

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Felizmente, há na Igreja quem entenda a palavra de Deus.

Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados (Lucas 6,37)

Um cego pode guiar outro cego? Não cairão os dois nalguma cova? (Lucas 6,39)