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terça-feira, 3 de novembro de 2009



Tenho andado distraída. Ou isso, ou ausente...
As urzes já floriram, e vestem os pinhais de um manto denso de saudade…

Chega o Outono e com ele uma nova paleta de cores acontece, espontaneamente, e veste a paisagem.

Meu Deus... como eu gosto deste sitio, meio perdido, plantado junto ao mar...

A beleza é assim mesmo. Acontece e surpreende-nos, um dia, e a cada Outono que acontece, são ainda mais belas, as urzes.

sábado, 19 de setembro de 2009


CANTARES DOS BÚZIOS

Meu coração é um búzio
onde em perpétuo rumor
se alonga a minha saudade
e murmura o meu amor.

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917.


Remexer nos livros e ter o prazer de encontrar, pela mão do poeta, a palavra feita escultura, uma das mais belas.
Tardes soalheiras, de retiro e reencontro.
Momentos para repousar e vaguear na solidão boa acompanhada da palavra, da luz e da brisa quente que sopra aqui fora.
Afinal, o verão ainda não foi embora.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Chris - Claire Harvey

De entre um certo número de coisas que não gosto, há uma que me deixa com uma certa melancolia: sentir os dias cada vez mais pequenos, que a noite caí cada vez mais depressa e que o sol inscreve o seu movimento de rotação semi-circular cada vez mais baixo no céu.
Os dias vão ficando mais frescos. O Verão anuncia a sua saída.
De todas estas coisas, há apenas uma boa: a luz da manhã que me entra pelas janelas dentro, e se estende, languidamente, ao longo do dia, no chão, num rasto perpétuo de luz e calor, projectando sombras sinuosas pela casa adentro, avivando cores, aquecendo o ar, preparando-o para a chegada do senhor que se segue.
Lembra-me que devemos tirar o máximo proveito dos dias, que devemos procurar o melhor que cada um deles tem para nos oferecer, para ser descoberto, que há uma rara beleza escondida em todas as estações.

segunda-feira, 20 de julho de 2009




Fonix!
Mas que raio de raiz é que eu plantei para colher o raio de vida que ando a ter?!
Entre desabafar e um saco de boxe, às vezes, dava um certo jeito um muro, uma parede bem dura e rugosa para andar ao murro e ao pontapé.
Assim, ia de baixa médica, psiquiátrica, e acabava-se logo o stress.

O país está uma loucura.
As pessoas vão de férias mas ficam em casa, na cidade, nos centros comerciais, a entupir as avenidas, arrastando-se pelas estradas em passeio.
Os políticos aceleram na auto-estrada rumo ao poleiro, com promessas de toda a espécie e feitio (e eu pergunto: será que nos tomam por parvos? ou será que somos mesmo parvinhos de todo?)
Não devia ser possível haver tantas eleições num ano só, e com tão pouco tempo de distância entre elas.
Por outro lado a política deveria deixar de ser um jogo que se joga para marcar pontos e vencer, custe o que custar.
Estou cansada de tanta jogatana suja, irresponsável e imoral.
Alguém recebe as páginas dos classificados dos jornais de Zanzibar?!
Estou a precisar de mudar de trabalho, de rumo e de vida.

domingo, 24 de maio de 2009

Václav Cigler
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Não tenho nada a dizer.
Custam-me as palavras de tanto que elas embatem contra. Um vidro transparente.
Tanto quanto eu embato e me magoo.
Magoa-me este vidro transparente que não sei se deturpa, se espelha, se me deixa ver, além. Que me separa do outro lado onde quero chegar, onde teimosamente, involuntariamente continuo a querer chegar.
Às vezes não tenho palavras, tanto quanto não tenho braços. Enterro-os.
Tanto quanto cavo o buraco fundo onde em vão enterro esta matéria do peito que revolve e se diminui a não ser.
Às vezes é difícil caminhar.
Sem ar.
Cega.
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domingo, 10 de maio de 2009

Robert and Shana ParkHarrison, Bloodroot.
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Há uma espécie de massa densa que pesa no peito, como quando nos sentimos interiormente assombrados, ensombrados.
Dentro uma névoa, casulo, e uma espécie de tendência de auto-destruição interior para apagar os passos, partir os fios que se tecem e nos norteiam, e fundeiam num ancoradouro que sabemos não ser, correr, rasgar e sair para o sol.
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Robert and Shana ParkHarrison, Mourning Cloak.


A tua vida é uma história triste.
A minha é igual à tua.
Presas as mãos e preso o coração,
Enchemos de sombra a mesma rua.

A nossa casa é onde a neve aquece.
A nossa festa, onde o luar acaba.
Cada verso em nós próprios apodrece,
Cada jardim nos fecha a sua entrada.


Eugénio de Andrade, em As Mãos e os Frutos.



Robert and Shana ParkHarrison, Summer Arm

quinta-feira, 7 de maio de 2009




Há dias em que nos questionamos sobre os caminhos, sobre as estradas que nos conduzem, sobre o lugar onde nos levam.
Percorremo-los todos os dias, sem que queiramos ou tenhamos grande interesse em prender o olhar. Um desses dias paramos, e olhamos melhor. O olhar, distante e amorfo descobre subitamente a beleza e a fragilidade de uma flor. Nesse instante criamos raízes, ali.
Mas as raízes não germinam na frieza e dureza do cimento, e lentamente obrigamos a que sequem.
Não estamos ali.
Não há lugar para nós.



quarta-feira, 6 de maio de 2009


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this love, doesn't have to feel love, doesn't care to be love, it doesn't mean a thing, this love.

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terça-feira, 5 de maio de 2009



Somos os lugares e interiorizamos as cores.
Porto, na Ribeira, porque há lugares suspensos, momentos eternizáveis e partilhas que são indizíveis tão grandes que crescem.
Um dia hei-de ser um lugar assim, e nesse dia não vou querer ser maior. Apenas poder contar com a eternidade dos momentos, até que a alma me doa e o peito expluda de tanto que já não conseguirá guardar.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Jim Lambie, Body Talk.


Um dia saímos do trabalho, entramos no carro, ligamos o motor, e de repente estancamos.

Parece não haver lugar algum para onde ir. Porque um dia a Fé também nos falha, e nesse instante questionamos tudo, o sítio e o que floresce, o universo e o sentido de todas as coisas, dentro e fora.
Aquilo que acreditamos e queremos construir – e construímos sós, como só um louco faria.
Um dia sentimos necessidade de não ser ali, nem sentir, arrancar todas as entranhas de dentro do corpo, atirar fora o lugar onde guardamos, e adormecer.
Um dia somos pessoas fortes e outro pessoas frágeis, e a fragilidade vem não sei de onde, porque nos falta tanto.
E um dia os caminhos, que já são de si confusos, adensam-se, e num segundo conseguimos ver claro: que o caminho não nos deixa ver mais além, que a Fé assim nos há-de condenar e levar a cometer suicídio, e que a razão, sobrevivente, nos obriga a repensar o rumo.

…saí pelo mesmo portão, virando na mesma direcção, rumo ao mesmo lugar.
O dia acaba cinzento, chuvoso, e eu vou ver se me restabeleço desta momentânea falta de chão nos pés.

domingo, 12 de abril de 2009

sábado, 4 de abril de 2009

Shintaro Nakaoka, Maria (pormenor)

da pedra
do sulco
das linhas que não nos levam a lado algum...

tactear
devagar
cavar mais fundo


sair

segunda-feira, 30 de março de 2009

Daniel Nicoletta


Quanto vale uma vida de conforto a fazer de conta?

E quanto vale um dia, cru, nu, a ser, verdadeiramente? E
mais um, atrás do outro?

terça-feira, 24 de março de 2009




Somos Homens árvores-pontes, e estendemo-nos a partir do centro, em equilíbrio, esperando alcançar.
Um dia, quando menos esperamos, porque não esperamos nada, ou esperamos apenas que nada interfira no nosso caminho e nos perturbe, porque queremos permanecer sem pontes ou braças, em pousio, apenas crescendo para cima, para o sol, nasce-nos um rebento no tronco, frágil, tenro e verde. Ele cresce. O coração floresce.
É isso.
Esperamos chegar, aprofundar raízes, crescer, partilhar, fortalecer, permanecer.
E é assim que um dia conhecemos um lugar próximo dos sonhos, um lugar familiar, aquele que sempre sentimos necessário, sem o qual nada faz sentido, aquele que sentimos nosso, onde queremos ir e ficar.
Nasce-nos uma ponte, cresce. Uma ponte onde chegar.
Nasce-nos uma braça que se estende além, ao lado, para captar ao comprido a energia da luz solar e deixar a seiva correr até às raízes.
E assim, um dia, todo o nosso centro de gravidade se altera e começa a deixar-nos pender.

Somos construtores de pontes. Sabemos pouco de engenharia do coração, mas sabemos que uma ponte liga duas margens, se lança e sustem a partir de um lado apenas até certo limite, o do equilíbrio.

E há um dia em que nos questionamos até onde conseguiremos crescer, suportar a pendente sem perder o equilíbrio. O dia em que precisamos de perceber se temos do outro lado onde pousar. Perceber se a braça comprida que estendemos aguentará o peso ou se vai rasgar junto ao peito, e dividir-nos em dois.

E por vezes num dia percebemos que não há onde chegar, que vamos cair, e sustemo-nos com toda a força. Cortamo-nos a partir de fora, diminuindo o peso, aumentando a distância.
Levantamos as braças, sustentamos as pontes.

Doemos e saramos. O centro de gravidade voltará ao lugar antigo.

Um dia eu hei-de construir uma ponte e encontra-te a meio do caminho. Nesse dia deitarei fora todos os projectos e cuidarei apenas.
É para isso que somos construtores de pontes, jardineiros de árvores: para, a partir de um certo dia, cuidar.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Manuel Alvarez Bravo


Temos tanto e tanto medo de naufragar, de nos deixar ir, entrar dentro de uma qualquer ilusão de lugar que não é, tal é o ruído, de fazer um caminho que não tem onde chegar.
Passamos as horas a apanhar papeis. Quando chegamos ao fim do dia, sentamo-nos, de corpo vazio.
Somos altivos. Não nos tocamos. Bombeamos o sangue apenas na medida do necessário. Não deixamos os músculos ganharem força. Não libertamos. Por fim temos medo que a frieza do corpo enrijecido possa contaminar-nos, congelar o sangue e provocar-nos a morte.
Às vezes pergunto-me se não teremos já morrido.

domingo, 8 de março de 2009




Fecho os olhos e registo a topografia da tua pele. Procuro uma curva perfeita para pousar a cabeça e o corpo e não sentir dor.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009


Tenho apenas uma certeza: a de que não fomos feitos para sermos sós, espartilhados, desprovidos de filamentos enlaçados, soltos, e nas pontas o vazio. Nada.
De que há um tempo necessário para reconciliarmos o corpo com o âmago de dentro de nós. Um tempo necessário de ausência, até ser dia de enchermos o espaço interior desabitado.
Ao largo do tempo, há-de haver um momento para recomeçar. Preencher os vazios da derme, um sopro que nos há-de impregnar, interstícios abaixo, até ao centro.
Tenho apenas uma certeza: a do pousio presente, a da ideia de sementeira, um dia.
E eu hoje tenho a certeza do infinito que tenho para dar. Ainda tenho essa certeza, mesmo depois de ter falhado, de ter perdido fé na minha grandeza, na minha capacidade e competência para dar e amar incondicionalmente, que julgava inquebrável, que afinal não foi extraordinária e inesgotável.
Uma certeza apenas: sedimentei e sei que há-de ser, outra vez, melhor e mais forte.


...pois, há muito tempo que não me apetece escrever sobre coisas sérias, ou coisas muito profundas. De certa forma, há certas alturas em que precisamos de não ser nós, nem ninguém. Nessas altura nada há a escrever, ser, opinar, porque não somos (ponto).
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Sonhei um poema feito de pedras,
pedras fluindo, fosse rio sereno,
de todos os tamanhos e matizes,
e eram duma beleza precisa:
roupa e linguagem de pedras.

Imerso no poema-pedra-rio,
o poeta – a pedra – a lapidar.
O que se via não era a pedra,
mas a poesia por dentro, além.

José Inácio Vieira de Melo em Canto de Pedra.

domingo, 15 de fevereiro de 2009
























Acontecem manhãs assim, de luz quente, brisa fria e salgada que nos beija, céu azul e mar acalmado, serenando.
Manhãs de raios de sol que aquecem o corpo quase nú, frio, fustigado, rejuvenescido, quase tão próximo da serenidade, quase tão distante…
Inscrevo os passos na areia, perco-me nos pensamentos. Por entre as passadas que dou sem dar conta tento perceber o que possivelmente não tem ponta de razão, e nem tem de ter... acho.
Às vezes queremos fazer da vida uma equação matemática. Um caminho. Um resultado.

Mas ela não é matemática, sabemos.
As variáveis e as incertezas devoram-nos, desgastam-nos, fazem-nos desacreditar.
As manhãs devolvem-nos a Fé, tanto quanto devolvem à Terra os raios de sol.
Eu nunca duvidei que o sol existe.


domingo, 8 de fevereiro de 2009

Vertical Flower, Sakurai Yasuko, 2007.


O tempo corre, como quem tem pressa de chegar a algum lado, sem que tenhamos a demora necessária para respirar, para baixar os braços e sentir. Corre como a vertigem, consome-se como uma cabeça de fósforo incendiada, um rastilho para nada.
Não é como a folha da árvore, que aguarda para se desprender, se lançar no vazio, esperando cair em chão macio. A erva daninha, que cresce.
Amanhã já tudo parece tão tarde, e tudo parece tão cedo também, e uma névoa que não me diz.
Amanhã é já dia de recomeçar, agora que me apetecia parar o tempo e repousar.

Amanhã é dia de viajar, de dar o corpo à estrada, a atenção de novo ao trabalho, concentrar os pensamentos no pragmatismo dos dias, reprograma-los, restringi-los a um colete-de-forças, colocar-lhes um freio e domar a impetuosidade com que percorrem outros caminhos.

Ele há fim de dias que nos ferem os pulmões ao respirar...

Tenho um consolo: que amanhã, depois de acordar, tudo será menos intenso, e tudo mais fácil, tudo cá dentro estará mais resignado.

…tenho uma mala para fazer, uns documentos para estudar e roupa para passar. Isto é que me está a dar a volta ao estômago. Não os desvarios que de quando em vez resolvem destabilizar-me o sistema.
Boa semana.