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quarta-feira, 28 de março de 2012


...as nossas estevas.


Sobrevoar o rosto
Como uma terra alheia

Perceber que tudo se incendeia
Ao estender do corpo

Daniel Faria

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010



Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.


Daniel Faria
Há coisas que nunca mudam, que continuarão a ser o que sempre foram...
felizmente.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

























Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

Fotografia parcial de uma obra de Joana Vasconcelos

terça-feira, 19 de maio de 2009

.

sobre a água estarei solto de caminhos
dos que vierem nenhum barco é para ti
.
não deixes a candeia acesa
dorme: basta-me essa luz
.
Daniel Faria

domingo, 19 de abril de 2009

León Ferrari, sem titulo, 2006.



Não fui margem sem outra margem onde ligar os braços

Mas fui o tempo solto para entrançar os meus cabelos
E o movimento dos teus pés descalços

Não fui a solidão inteira nem reclusa
Para o único repouso entre o silêncio
Nem fui a flor exausta defendendo-se
De toda a mão que a quis despetalar

Não fui a casa que a si mesma se abrigou
Nem a morada que nunca se acolheu
Mas o tempo a pedir que me deixasse

Naquilo que não fui vim encontrar-me
E sempre que te vi recomecei.


Daniel Faria

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

The Red Dancer - Kees van Dongen


Procuro o lento cimo da transformação

Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio.

Daniel Faria - Dos Liquidos.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Luciano Fabro


As noites de insónia são dilacerantes.

Chove, o céu a ferro e fogo, rugidos incomensuráveis como bombas implodidas dentro do peito. Anseio por um primeiro raio de sol, um que nos há-de resgatar às horas vazias e à noite.
Nesta espera, transição, metamorfose, as palavras fazem-me companhia. Não me embalam, mas também não me despertam ainda mais.
Estão, como por vezes precisamos, que estejam, apenas, até ao dia seguinte.



Há um comboio iluminado no meu cérebro cheio de túneis e noites
Uma ideia que passa cheia de janelas intermitentes como pirilampos transformados
Borboletas rápidas – há esta paisagem respirando

Pensativamente entro na viagem visível de uma intuição premeditada:
Que diferença faz à posição do meu corpo a rotação da terra? Vivo
Num único lugar

Às vezes ando descalço por uma linha encerrada
No corpo
Encostado ao ferro arrefecido pelas estações que passam. Pouca terra
Lhe é dada para poder germinar. Dentro da terra

Ou de uma veia cortada.
Faço às vezes o trajecto inverso do sangue
Medito encostado às pulsações mais amadas. Pouca terra me foi dada
Para calar sempre. E amo
Anónimo a luz transitória. O pulso interno de uma luz intermitente.

Daniel Faria – Do Sangue - Poesia, Lisboa, Quasi, 2003.



Agora, que o dia veio, abafando a escuridão, vou ver se encontro os meus passos marcados na areia, ver se vejo um caminho qualquer, um que a chuva não apague, ou as ondas a mergulhar na praia, um ponto de referência, ou o norte.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009



Procuro o lento cimo da transformação
Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio.


Daniel Faria - Do Inesgotável, Poesia, Quasi, 2003.

domingo, 12 de outubro de 2008

Hélio Oiticica

Há uma casa fora de mim, aonde regresso, que tem raízes e seiva. Uma casa de palavras que retemperam e curam. Como um casulo.
Voltar a Daniel Faria:


De neblina somos. Vaidade, faísca
Faúlha daquilo que se extingue, o que se apaga
Inumerável nada

Apedrejas-me com a mesma pedra que me dás
Para o descanso

Pisam-me os cascos do veado em chamas
As hastes emaranhadas no lume

Pelo tacto procuro o caminho das águas
Cego - e os olhos a quererem abrir-se
Como as chagas

Danial Faria, Livro dos Solilóquios.


segunda-feira, 19 de maio de 2008

Martinha Maia, No Drawing, no Espaço Avenida, Maio 2008.



Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como o pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiramente acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiros num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre o mar

E bebe


Daniel Faria – Poesia - Das Manhãs - Explicação das árvores e de outros animais, Edições Quasi, 1.ª edição, Lisboa, Novembro 2003, p.39


:

segunda-feira, 21 de abril de 2008



.

.
Tenho aflição por tudo o que morre
Como tenho pavor por cada noite que cai.
Como fui esquecer o caminho para fora?

Infeliz que escrevi as sendas da caça.
Comerei erva? Sol? Comerei estepes e estepes
A arder?

Vou-me pôr à mesa e esperar.

Tenho aflição por toda a ausência não anunciada
Acendi a luz por toda a casa e electrifiquei a voz
Agora posso ampliar o clarão dos gritos.

Posso abrir trilhos no fogo: sei o ritmo da mão exacta
Que fez o povo atravessar enxuto o interior da água.

Vou-me sentar à mesa. Vou deixar arrefecer a comida.
Fazer de conta que estou a esperar.


Daniel FariaPoesia, Edições Quasi, 1.ª edição, Lisboa, Novembro 2003, p.40


quarta-feira, 9 de abril de 2008


Maria Serebriakova, sem titulo, 1990.

.
O homem lança a rede e não divide a água
O pobre estende a mão e não divide o reino

É tempo de colheitas e não tenho uma seara
Nem um pequeno rebento de oliveira.
.
Daniel Faria

domingo, 30 de março de 2008

HS, MNL, 2007



Pousa devagar a enxada sobre o ombro

Já cavou muito silêncio



Como punhal brilha em suas costas

A lâmina contra o cansaço.


Daniel Faria

.

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão inesperados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior

Daniel Faria

terça-feira, 25 de março de 2008


[...]

4.
Se te puseres à escuta a magnólia pode ser uma árvore de fruto –
A escuta enche-nos de sumo como um poço no meio dos pátios.
A magnólia enxerta-me nos pensamentos, é um profundo
Rumor na minha carne, a linha que me vai da mão
A outra mão. Ela não tem medo
De aproximar-se quando minha mãe me pega ao colo.
Ela levanta-me da terra
Como os tufões e os bandos dos pássaros.


Daniel Faria
Do ciclo das intempéries
Poesia, 1.ª edição, Lisboa, Quasi, 2003

segunda-feira, 24 de março de 2008

Jennifer Shaw, Floating Clovers, 2001.

1.
Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.

Daniel Faria
Do ciclo das intempéries

Poesia, 1.ª edição, Lisboa, Quasi, 2003

domingo, 2 de março de 2008



O coração da mulher é alto
Mas nem só por isso a mulher oscila
Ela é como o navio mercante
Que chega carregado de grão

A mulher é o tear dentro da vida
Nem só por isso a mulher é mais que a vida
Ela é como o navio mercante
Que chega carregado de grão

Elogio da mulher (Pr 31, 14)
Se fores pelo centro de ti mesmo
HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS

Daniel Faria

.

.

Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro

Entrei com a sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorre-me para os pés. Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido

Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre

Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha

Uma espécie de anjo ferido na raiz
HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS

Daniel Faria

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

M. C. Escher - House of Stairs

1.

Já me ensinaram que o sol
Não morre. Eu acredito
Na noite (o meu coração morre às escuras)

2.

É verdade que acredito no homem
Que não fala (no homem que comunica
Com as mãos). Acredito
Na dor reveladora das coisas decepadas

3.

É verdade que estou muito triste
Na terra (já me indicaram a estrada
Com luz pública). Estou sentado nos degraus
Como alguém que parou de subir

Daniel Faria, do livro Dos Líquidos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008



Daniel Faria, para mim, é como o mar. É onde gosto regressar quando preciso de me deixar perder, desprender, desnudar…

[...]

Tornei-me peso
Rochedo respirando para dentro nos líquenes interiores
Peso da ceguez nos meus olhos contaminados
Das pupilas inquinadas pelas pedras interiores

Tornei os olhos muito impuros por milhares de imagens
Pedras internas golpeando-me
Tornei-os incapazes das visões
Das visões interiores e por fora
Da aparência
Afoguei os olhos no meio das águas
Um peixe cheio de canais mudando as suas cores
Doendo-me muito nos olhos cobertos
Por escamas

Quis abrir os olhos no meio das águas no meio das imagens
E estava cego, estava coberto de fantasmas
Quis respirar com as mãos na garganta, guelras acesas
Porque as imagens não tinham rostos nas janelas

Elas fecharam-se sobre os meus olhos, em cardume,
Elas apontaram-me aos olhos as antenas interiores
Elas propagaram-me um modo cerrado de não ver

Dinamitei depois tudo o que em mim tinha forma de aquário
Um aquário sem nada dentro dele, dinamitei de vazio
Aquilo que na transparência tinha material explosivo
Uma força concreta, a capacidade de um cenário
Devastado

E dinamitei o vazio e encontrei um peso
Humano que não se afundava:
Era um milagre como Lázaro vindo para fora!
Era um homem que nos levava por um caminho desconhecido para casa
E que partia o pão. E eu vi que era ele
Que partia
O pão.


[...]

Excerto do poema “Mas basta-me um quadrado de sossego”do livro Homens que são como lugares mal situados.
Daniel Faria

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Cinzas . Falésia - Costa Vicentina . Maio . 2007
.
Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma de quem já só por dentro se
ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.

Daniel Faria