Tenho os quadros no chão. Um monte de telas e molduras com colorido e textura encostadas à parede, esperando. Caixotes de cartão, pouco tempo para os movimentar, e pó.
Estou cansada. O dia correu bem. Está mais uma etapa vencida com sucesso.
O cansaço faz-me baixar à terra, assentar os pés e desarmar, repensar, “retrospectivar”, se é que este verbo existe, o sentido. É estranha esta sensação, de esvaziamento, de nudez, de desprendimento, de desenquadramento racional.
Apetecia-me cair, assentar, ameigar-me onde já fui feliz. Um microcosmos pulmão e sangue.
Mas as tempestades passam, e à sua volta deixam um rasto de destruição. Com elas levam, por vezes, os lugares onde já fomos felizes. Deixam esta sensação de despojamento e de melancolia.
Sinto saudades. Um sentimento de desenraizamento, de pertença estranho, como se algures tivesse deixado uma parte, uma parte significativa, desprezada e maltratada, mas que é nossa.
Deixei.
O cansaço quebra-nos a vigília, a vontade. A nostalgia apodera-se do pensamento. Ou não sabemos muito bem o que se apodera da razão. Sabemos que algo se apodera de qualquer coisa. De repente o mundo muda de sítio e o peito fica pequeno.
Contra isto, uma noite de sono, um sonho, e esperar que o verão passe depressa.
Dizia eu que tenho os quadros no chão, a paixão encerrada num traço, num ponto final.
