terça-feira, 30 de dezembro de 2008


Robert Smithson, Spiral Jetty, 1970.


A beleza mais nobre não é a que encanta de imediato, que procede por assaltos fogosos e inebriantes (essa facilmente se torna fastidiosa), mas sim a que se insinua lentamente, aquela que transportamos sem o sentirmos e que um dia acontece encontrarmos em sonhos, mas que, depois de durante muito tempo ter ocupado um lugar modesto no nosso coração, acaba por nos possuir inteiramente, por nos encher os olhos de lágrimas, o coração de nostalgia.

Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano.

Poder-se-ia dizer isto mesmo de tantas outras coisas tão importantes… não apenas da beleza, mas de tanto que nos faz Existir, verdadeiramente.

Neste tempo que vivemos, adivinhando um suceder de dias feios paridos dos actos indecorosos de homens ignóbeis, amputados de beleza e de sonhos universais, do grande Sonho Humano, será precisa coragem para saber reconhecer dentro de cada um de nós os Sonhos, os mais belos, para torna-los realidade, pois não creio que estejamos aqui, neste nanosegundo cósmico, para viver num mundo torpe.
Diz-se que o mundo é aquilo que fazemos dele, e eu creio que sim, que o mundo somos nós, aqui e agora, amanhã.
A todos, desejo que encontrem em 2009 O Sonho dentro de vós, e que tenham a força necessária para tornar a Beleza realidade, para tornar o mundo, o peito, o coração, um Lugar cheio de beleza, aquela capaz de contagiar e resistir...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A Adoração dos Pastores, Tintoretto, 1581, 542 x 455 cm


Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, para que fosse recenseada toda a terra. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirinio era governador da Síria. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
Subiu também José, da Galileia, da cidade de Nazaré, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de recensear-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
Enquanto estavam ali, chegou o tempo em que ela havia de dar à luz, e teve a seu filho primogénito; envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
Naquela mesma região pernoitavam pastores no campo, que guardavam durante as vigílias da noite o seu rebanho. O anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor os cercou de resplendor; pelo que se encheram de grande temor. O anjo, porém, disse-lhes:
"Não temais, porquanto vos trago novas de grande alegria que o será para todo o povo: É que nasceu hoje, na cidade de David, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal ara o identificardes: Achareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura".
Então, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo:
"Glória a Deus nas alturas e paz na terra entre os homens de boa vontade".
Quando os anjos se afastaram deles em direcção ao céu, os pastores disseram uns aos outros:
"Vamos já até Belém, e vejamos isso que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer".
Foram, pois, a toda a pressa, e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura; e vendo-o, divulgaram a palavra que acerca do menino lhes fora dita; e todos os que a ouviram se admiravam do que os pastores lhes diziam.
Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração.
E voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora dito.

Lucas 2, 1-20

Feliz natal, com amor, saúde e bons momentos de felicidade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008



...da irreverência, coragem, amor à vida e amor à arte.

Phillippe Petit
Reportagem CBS - 1974

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

How to fight against moths, Time Out, 2007




OK!

Está na hora de fazer um intervalo.
Quando algo já não nos diz grande coisa é importante tentar perceber se queremos ou não queremos continuar e insistir, insistir...
Neste momento não quero, não me apetece continuar a escrever para aqui.
Não tenho tempo.
Simplesmente não me apetece.

So...




So long, I'll see ya!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008


Workjacking.

Li este termo num dos blogues que comentavam o recente afastamento de Joana Varela da Colóquio/Letras.
E Workjacking é mesmo o termo a utilizar, e infelizmente acontece cada vez mais em Portugal.
É cada vez mais frequente o assalto aos lugares de destaque e de grande relevância, às funções mais vistosas, aos projectos mais importantes depois de bem consolidados. É frequente a falta de respeito pelo trabalho meritório de pessoas que mudaram e marcaram a cultura portuguesa.
É frequente o partidarismo com que se tomam certas decisões, seja o político-partidário, seja o pessoal ou de outra ordem, em detrimento da competência, do trabalho, da dedicação e entrega, do mérito.

Infelizmente o nosso país é assim, e tenho de confessar que tenho cada vez mais asco à cambada de energúmenos que se encontram a conduzir os destinos das nossas grandes casas de cultura, como esta.

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Para saber mais:

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008



Estou há cinco dias a actualizar o currículo (os últimos dois anos) e ainda só consegui terminar o ano de 2007.
Quem ler a frase acima deve pensar que tenho um que nunca mais acaba.
Acaba!
É substantivo e generoso, mas essa substância e generosidade bem que poderia ser proporcional ao meu cansaço e incapacidade para pensar depois de um dia de trabalho atrás de outro, sempre esgotante.
Agora vem a parte difícil… no meu tempo havia uma forma de fazer currículos: dados pessoais, formação académica, formação profissional, experiência profissional mais ou menos descritiva com indicação das competências especiais, publicações, participações em seminários e por aí fora, tudo por ordem cronológica, muito bem descrito e comprovado, para que o empregador/entrevistador soubesse exactamente o tipo de perfil e competências que o candidato tinha.
Os tempos mudam e agora há uma nova forma de fazer currículos: os EuroPass, com uma formatação específica que dá vontade de fugir e segundo uma norma europeia que até mete medo. Eu, pelo menos, acho, e de cada vez que me aparecem curriculos desses à frente é uma dor de cabeça para os ler.
Agora é a minha vez de dar esse trabalho a outros, sem bem que dá tb imenso trabalho a preparar, e não querendo parecer antiquada, vou-me render à norma.
O mais interessante destes currículos é que eles estão para a apresentação do perfil e competências dos candidatos, como Bolonha está para a formação académica: quanto menos informação tiverem melhor e quanto mais condensada e curta melhor.
Duas ou três páginas para explicar um currículo de onze anos… assim como uma dessas Licenciaturas que se tiram ao fim de três anos e Mestrado ao fim de mais dois, com uma tese com cerca de 50 a 75 páginas sobre uma “pintelhice” qualquer, com pouca informação, pouca fundamentação e o mais sintética possível.
Ora! É para isto que caminhamos.
Raios partam estas coisas da Europa!

domingo, 9 de novembro de 2008



Houve um tempo em que eu era daqui, e todas as horas tinham um sabor que já não consigo recordar, mas davam prazer, e pareciam desprendidas do tempo, perdidas, como se ele passasse por mim sem me levar.
Houve um tempo em que os sonhos passavam da noite para o dia, linearmente, e se vivia dia a dia o conforto de estar segura e ser feliz.

sábado, 1 de novembro de 2008

Ben Rose. Station Wagon Interior, Utopia Parkway, Queens. 1955,
© 2008 Estate of Ben Rose


Eu não tenho propriamente certeza do que quero.
E depois?
Afinal, à medida que os dias passam, tenho cada vez menos certeza do que realmente pretendo, e por mais que tenha o que sempre quis, nunca tenho o suficiente.
Tenho pouca coisa. Tenho o necessário. Já o amor dá demasiado trabalho. Mais do que aquele que consigo tirar de mim. É assim mesmo.
Nunca fui grande coisa nesta matéria. Eu sei. Ninguém me disse e por isso não é preciso dizer mais nada, nem que sim nem que não. Afinal, conheço-me bem.
Embora não deixe de ser curioso. Sempre gostei de trabalho, e para mim, trabalho é, muitas vezes, sinónimo de prazer. Em demasia também nos faz passar pela vida sem que tenhamos tempo para saborear dois pares de dez minutos, saborear o silêncio, os momentos mais íntimos e intransmissíveis, os rituais que são só nossos, as nossas coisas, o nosso espaço, o nosso tempo...
O dia consome-se como uma cabeça de fósforo incendiada, a noite passa pesada sem que dê pelos sonhos, e a manhã, cada vez mais densa, teima em vir demasiado depressa.

Mais uma fase, mais um vazio necessário, e ainda assim indolor, conformado.
Acho que estão assim os meus dias, entre o trabalho levado ao extremo, o conformismo e a vontade latente de mudança, que há-de chegar. Que eu quero esperar.


domingo, 19 de outubro de 2008

Hiroshi Sugimoto

O que eu gostava?
O que eu gostava era de não sentir medo e mergulhar no mundo.
Mas acima de tudo ter o temperamento necessário para mandar certas pessoas à merda, e ficar leve e satisfeita depois disso.


Hoje está um dia extraordinário de sol, fresco, um sol raso de manhã de Outono.
Levantei-me com vontade de ir às pinhas, entrar pelo pinhal dentro, onde não há vivalma nem som algum que não seja o do vento nas copas dos pinheiros, dos gaios, melros e pequenas aves, e da caruma seca a quebrar debaixo das botas, e arranjar uma meia dúzia de sacos com pinhas para queimar no Inverno.
Depois, desembocar no mar e terminar com um bom café na esplanada da praia, aquela onde apenas os pescadores vão, agora que parece que o mar está a dar sargos e robalos à linha, longe das histerias dos patins em linha e das bicicletas de domingo de manhã.
Claro que tamanha divagação se deve apenas e só ao facto de não ter tempo para o fazer. Dizia o Variações que bem que se podia fazer hoje (ontem).
Sempre fui assim. Quando mais nova, tendo de estudar, deixava sempre para último, e havia sempre mais alguma coisa interessante para fazer do que estudar, ou fazer os trabalhos de casa. Mesmo depois, quando os estudos começaram a doer, e já depois quando exigiram outro tipo de abordagem, foi assim. É assim. Não mudamos assim tanto, nem com a idade enm com outro tipo de responsabilidades.
Deste modo, e como não vou arriscar a sair daqui (ainda me perco) mergulho numa foto de Janeiro deste ano. É assim que está o dia de hoje. Lindíssimo.
Ai que bem que se deve estar na praia…

sábado, 18 de outubro de 2008



Espólio de Fernando Pessoa impedido de sair de Portugal

Os herdeiros de Fernando Pessoa, proprietários do espólio que vai ser leiloado pela P4 Photography, a 13 de Novembro, consideram a intenção, hoje anunciada pela Biblioteca Nacional de Portugal em classificar os documentos do poeta como Património Nacional, uma "ridicularia política".
Em declarações à Agência Lusa, Miguel Roza, sobrinho de Fernando Pessoa (1888-1935), e um dos proprietários do espólio, em conjunto com a irmã, Manuela Nogueira, considerou a medida "uma tempestade num copo de água nesta altura". "É uma ridicularia política porque os documentos que vão a leilão não são os mais importantes e o Governo vem mostrar agora que está interessado em classificar tudo", comentou. Miguel Roza reagiu desta forma ao facto da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) ter iniciado o processo de classificação do espólio do poeta Fernando Pessoa como Património Nacional, no âmbito da lei de bases do património.
Fonte do gabinete jurídico da Biblioteca Nacional confirmou à Lusa que "foi decretado o início do processo de classificação do espólio" e que todas as entidades detentoras de documentos do poeta foram já informadas. "Tendo sido informados todos os possuidores de documentos de Fernando Pessoa, será colocado anúncio no Diário da República a 23 de Outubro, havendo 20 dias para contestação", explicou Jorge Couto, director da BNP.
Dossier inédito Pessoa-Crowley é destaque no leilão da P4 Segundo esta determinação, todos os possuidores não conhecidos, de documentos de Pessoa, devem dar conhecimento do seu paradeiro à Biblioteca Nacional.
Esta classificação, esclareceu Jorge Couto, "coloca limitações às movimentações dos documentos que nunca poderão sair de Portugal em termos permanentes, mesmo que mudem de proprietários".
Miguel Roza disse que foi notificado há dois dias e que os herdeiros e a leiloeira P4 entregaram o caso a um advogado "porque se trata de uma questão jurídica".
Documentos, livros, cartas, revistas e fotografias de Fernando Pessoa pertencentes aos herdeiros do poeta integram o lote de documentos que estão previstos ir a leilão em Novembro pela leiloeira P4 Photgraphy.
No conjunto está o dossier Pessoa-Crowley - com cerca de 800 páginas - que reúne, entre outros manuscritos, correspondência entre o poeta e o ocultista inglês Aleister Crowley, e a novela policial inacabada que Pessoa escreveu com base no suicídio encenado de Crowley na Boca do Inferno, perto de Cascais, em 1930.
A família detém um espólio disperso que inclui, por exemplo, cerca de trinta livros que foram pertença de Fernando Pessoa, alguns deles oferecidos por outros escritores da época, e que contêm dedicatórias.
Num leilão realizado em Dezembro do ano passado, em Lisboa, um particular adquiriu por 11.000 euros uma fotografia de Fernando Pessoa aos dez anos, com uma dedicatória, oferecida pelo poeta a uma amiga.

17.10.2008 - 15h03 Lusa

...pois é. A questão é que poucas pessoas, muito poucas obras, adquirem o estatuto de património nacional e um reconhecimento cultural inigualável, acabando pertença da cultura de um país.
A verdade é que esse reconhecimento tem um efeito perverso: o valor material que os testemunhos adquirem, muitas vezes atentatório do verdadeiro valor intrínseco das coisas.
Leiloar um conjunto de documentos é simplesmente destruir uma colecção, um fio condutor, um conjunto de bens que contam uma história, que são uma história, que são uma coisa só, com um sentido muito próprio. E não são apenas a informação escrita. São matéria também.
Compreende-se a posição da Biblioteca Nacional. Mas também não se compreende. A colecção pode ser espartilhada na mesma. Só não pode é sair de Portugal…
O que não se compreende também é, por vezes, a falta de diálogo do Estado com certas famílias de pessoas como a de Pessoa. A falta de diálogo com vista à salvaguarda de bens de valor patrimonial e importantíssimo para a cultura Portuguesa. E a falta de dinheiros públicos para utilizar na salvaguarda desta singularidade e unidade.
Por outro lado, o diálogo, por vezes, também é dificultado pela outra parte, mais interessada em rentabilizar papeis que pouco mais devem significar do que dinheiro fácil.
Mas também é legitimo que o rentabilizem. É até mesmo vulgar certos artistas constituírem um bom espólio como garantia de sobrevivência confortável dos seus descendentes.
De qualquer modo, segundo dizem as más-línguas (ou boas) o Ministro da Cultura, recentemente, numa conferência da Casa Fernando Pessoa, já tinha afirmado que medidas deste género pudessem vir a ser tomadas, para evitar que certos bens ou colecções com interesse cultural nacional viessem a sair do país, e segundo consta, também lá estava a sobrinha do poeta. Certo é que, propositado ou não, entendida a mensagem ao não, chegámos ao que chegámos.
Não fico mais descansada. Repito: a colecção vai ser leiloada e espartilhada. Isso também é lamentável.
O sistema está cheio de perversidades.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Damien Hirst, The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living, 1991.

Quando se passa um dia a “ferver”, mas ao mesmo tempo com muita água fria à mistura (a pensar já no fim-de-semana que, finalmente, não se tem grande coisa para fazer, e o que há, até pode esperar para segunda-feira), nos chamam para uma reunião só para responder a uma questão, e se acaba por lá ficar cerca de duas horas e meia com dois tubarões, a querem de nós “opiniões à lá minute” sobre assuntos que carecem de juízos formulados, minimamente estudados e fundamentados, e se sai da sala já a deitar vapor pelos ouvidos, meio a pensar no “dolce fare niente” dos dois dias seguintes, mas logo de seguida com o big boss a passar-nos uma pasta para a mão e a dizer “então aqui a Grafis vai estudar o dossier este fim-de-semana e segunda-feira nós damos uma reposta…”, acaba-se por ficar com uma grande neura e por estorricar por completo todos os neurónios que ainda escapavam ao braseiro.
Assim, e para ver se isto passa, nada melhor que dedicarmo-nos ao lazer, a alguma coisa que não exija grande esforço, motor e mental, de preferência a dar para a parvalheira.
Então aqui está, mais um teste.
Fiz dois, mas como não estou à venda, e acho que o resultado de um deles é especulativo (pois exibe um valor acima daquilo que eu acho que realmente valho) e é por causa destas coisas que hoje estamos como estamos, apresento apenas o resultado de um.
Quem porém conhece a minha caligrafia diria que seria impossível descortinar o que quer que fosse dela… muito menos os traços de personalidade (só se fosse uma certa demência).
Aqui vai:

Você não costuma tomar decisões precipitadamente.
Sempre toma muito cuidado antes de agir e suas atitudes costumam demonstrar um padrão moral que você considera superior.
Idealismo, modéstia, otimismo e afetuosidade estão entre suas principais características.

E até que é verdade, a ajuizar pela questão racional/moral. Já o resto não sei… há quem diga que não, e há quem diga que sim. Eu cá acho que não se pode agradar a gregos e a troianos.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Seduction Style

We don’t know how you figured it out, but you’ve manage to keep your lovers close despite your critical view of the world. Maybe you aren’t cynical. Just a little cautious. Either way, you’ve managed to keep your head on your shoulders. You do have a little bit of misanthropy going on up in there. But hey, when you build your solar powered cabin in the woods everything will be fine.

Its very rare to meet someone so clever that isn’t into taking advantage of romantic or sensitive people. Your best seduction move, be your honest and insightful self. A straight shooter, (even a slightly damage straight shooter) is a fine catch for anyone.

aqui



Damien Hirst, Golden Calf, 2008

Crise?
Qual crise?!
Sinto-me tentada a concordar com o nosso Primeiro. Não estamos em crise.
A prova-lo o Leilão da Sotheby's de 15 e 16 de Setembro.
Golden Calf de Damien Hirst rendeu a melódica quantia de 13 112 000€ (sim! São milhões!), The Dream 2 962 000€, e mais umas quatro na ordem do meio milhão de euros cada.
No total, o leilão rendeu 140 300 000€…
Sim, são números inimagináveis para a grande maioria de nós, tal como são os vinte mil milhões de euros do fundo de garantia para Portugal, e os quinhentos mil milhões da Alemanha, e por aí fora.
Sabem o que vos digo?
Dediquem-se às artes plásticas, especulem em torno das obras, façam fortuna em alguns meses.
Ou então, esqueçam a loucura e a fortuna e emigrem para uma ilha qualquer ali para os lados da Polinésia, já que as das águas do Pacifico andam meio turbulentas nos últimos tempos.

terça-feira, 14 de outubro de 2008


Ghada Amer, And the Beast, 2004

“Regresso à terra de onde nunca devia ter partido, mas parti, regresso às raízes que nunca devia ter cortado, mas cortei, regresso à casa da qual saí em demanda de mim próprio mas à qual retorno porque o meu objectivo na vida, afinal, é apenas o que me tornar bom filho.”

Rui Zink in Revista Egoísta, Setembro 2008.

vendo bem, o quadro não tem nada a ver com o texto. mesmo nada. em comum só a linearidade longa do tempo em que os descobri. e gostei. só isso.

domingo, 12 de outubro de 2008

Hélio Oiticica

Há uma casa fora de mim, aonde regresso, que tem raízes e seiva. Uma casa de palavras que retemperam e curam. Como um casulo.
Voltar a Daniel Faria:


De neblina somos. Vaidade, faísca
Faúlha daquilo que se extingue, o que se apaga
Inumerável nada

Apedrejas-me com a mesma pedra que me dás
Para o descanso

Pisam-me os cascos do veado em chamas
As hastes emaranhadas no lume

Pelo tacto procuro o caminho das águas
Cego - e os olhos a quererem abrir-se
Como as chagas

Danial Faria, Livro dos Solilóquios.


sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Fractal

Alguém está à espera de um milagre hoje? Daqui a umas horas? Lá para meio do dia?
Alguém está à espera de um pouco de humanidade, cidadania e democracia lá para os lados de São Bento?
Não.
Milagres são feitos de pessoas de bem, de pessoas responsáveis, integras e justas. Não são feitos de pessoas hipócritas, amputadas e de vistas curtas. Nem tão pouco de politiqueiros que podem ter tudo (eles pensam), menos as qualidades requeridas, as mais nobres e valiosas que um ser humano pode aspirar a ter (eu nem sei como se conseguem olhar ao espelho de manhã).
Ninguém espere milagres daquelas bandas, nem mesmo a mais simples, justa e nobre legitimação de direitos universais.
Por vezes gostava que se olhassem certas coisas com os olhos com que se olha para a coisa económica, com frieza, com objectividade, com pragmatismo, com total ausência de comoção...
Tanto como por vezes gostava que se olhasse para a coisa económica, do ponto de vista dos valores humanos, do bem-estar universal, ao invés do da materialidade e do individualismo.
Anda tudo às avessas… vamos ver onde no leva este carrossel de pedantes.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008



Este blog está solidário com todos os trabalhadores da Função Pública e em greve.

Reivindica:

Melhores salários;
Vínculos de nomeação para todos os trabalhadores;
Revogação do regime de mobilidade especial e sem precariedade;
Carreiras dignas;
Avaliação justa e sem quotas;

Acima de tudo reclama:

Por uma alteração geral à legislação portuguesa para acabar de vez com a profissão de Politico profissional, limitando para um determinado número de anos (8 a 12 anos) a ocupação de um cargo político, seja ele qual for, e o dobro dos anos para poder voltar a ocupar um cargo;

Que não seja legalmente permitida a promiscuidade político-partidária/profissional de alguns militantes/trabalhadores no que se refere a funções e a cargos públicos e politicos;

Por uma renovação imediata de políticos e candidatos a políticos profissionais, por cidadãos, profissionais especializados das mais variadas áreas, que possibilitem ao país uma gestão profissional dos interesses dos cidadãos e do Estado, em prol do bem-estar geral, independente do bem-estar e interesses económicos e partidários de alguns.

Por honestidade politica e ideológica, por uma real e irreversível assunção dos valores ideológicos de cada partido pelos respectivos políticos e candidatos, bem como a implementação de politicas estruturais e conjunturais em função da ideologia que cada um defende, (ou deveria ter preocupações em defender);

Pela legalidade de todos os direitos consagrados na constituição portuguesa que ainda são vedados a muitos.

Por seriedade política, muita seriedade política, e por vergonha, muita vergonha!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008



balance

sábado, 20 de setembro de 2008



Imaginem
00h30m

Imaginem que todos os gestores públicos das setenta e sete empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em dez por cento. Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados. Se os resultados fossem bons as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus ajudavam em muito na recuperação. Imaginem que os gestores públicos optavam por carros dez por cento mais baratos e que reduziam as suas dotações de combustível em dez por cento. Imaginem que as suas despesas de representação diminuíam dez por cento também. Que retiravam dez por cento ao que debitam regularmente nos cartões de crédito das empresas. Imaginem ainda que os carros pagos pelo Estado para funções do Estado tinham ESTADO escrito na porta. Imaginem que só eram usados em funções do Estado. Imaginem que dispensavam dez por cento dos assessores e consultores e passavam a utilizar a prata da casa para o serviço público. Imaginem que gastavam dez por cento menos em pacotes de rescisão para quem trabalha e não se quer reformar. Imaginem que os gestores públicos do passado, que são os pensionistas milionários do presente, se inspiravam nisto e aceitavam uma redução de dez por cento nas suas pensões. Em todas as suas pensões. Eles acumulam várias. Não era nada de muito dramático. Ainda ficavam, todos, muito acima dos mil contos por mês. Imaginem que o faziam, por ética ou por vergonha. Imaginem que o faziam por consciência. Imaginem o efeito que isto teria no défice das contas públicas. Imaginem os postos de trabalho que se mantinham e os que se criavam. Imaginem os lugares a aumentar nas faculdades, nas escolas, nas creches e nos lares. Imaginem este dinheiro a ser usado em tribunais para reduzir dez por cento o tempo de espera por uma sentença. Ou no posto de saúde para esperarmos menos dez por cento do tempo por uma consulta ou por uma operação às cataratas. Imaginem remédios dez por cento mais baratos. Imaginem dentistas incluídos no serviço nacional de saúde. Imaginem a segurança que os municípios podiam comprar com esses dinheiros. Imaginem uma Polícia dez por cento mais bem paga, dez por cento mais bem equipada e mais motivada. Imaginem as pensões que se podiam actualizar. Imaginem todo esse dinheiro bem gerido. Imaginem IRC, IRS e IVA a descerem dez por cento também e a economia a soltar-se à velocidade de mais dez por cento em fábricas, lojas, ateliers, teatros, cinemas, estúdios, cafés, restaurantes e jardins. Imaginem que o inédito acto de gestão de Fernando Pinto, da TAP, de baixar dez por cento as remunerações do seu Conselho de Administração nesta altura de crise na TAP, no país e no Mundo é seguido pelas outras setenta e sete empresas públicas em Portugal. Imaginem que a histórica decisão de Fernando Pinto de reduzir em dez por cento os prémios de gestão, independentemente dos resultados serem bons ou maus, é seguida pelas outras empresas públicas. Imaginem que é seguida por aquelas que distribuem prémios quando dão prejuízo. Imaginem que país podíamos ser se o fizéssemos. Imaginem que país seremos se não o fizermos.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008




Isto de ter miúdos a andar por casa faz com que conheçamos certas coisas que de outra forma, talvez não viéssemos a conhecer.
Há uns tempos eu e os meus piquenos víamos este filme quase todos os fins-de-semana. Adoravam-no!
Passados dois ou três anos, o meu piqueno (o mais novo) lembrou-se de me pedir para ver de novo.
Resultado: barrigadas de riso!

Irónico e inteligente! E ele percebe-lhe muito bem o sentido.
Bem feita! Dizia ele…

Quanto ao resto… as férias (curtas) já lá vão e o trabalho é mais que muito… Setembro já cá está e o verão passou rápido demais. Será mesmo assim – o tempo passa rápido - ou será mesmo impressão consequência da idade… sei lá!
Bom trabalho para quem inicia agora mais um ano e boas férias para quem passou o verão a trabalhar e vai agora aproveitar uns dias bons de descanso. Eu, fico-me por aqui.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Barnett Newman, Vir Heroicus Sublimis, 1950/51

Este blog não está de férias.
Aliás, está em repouso forçado devido ao muito trabalho que tenho a fazer fora dele.

Depois, daqui a uns dias, uma pequena pausa para descansar e lá para a terceira semana de Agosto estará de volta.
Até lá, uns bons dias para blogosfera.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Joseph Beuys


Tenho os quadros no chão. Um monte de telas e molduras com colorido e textura encostadas à parede, esperando. Caixotes de cartão, pouco tempo para os movimentar, e pó.


Estou cansada. O dia correu bem. Está mais uma etapa vencida com sucesso.
O cansaço faz-me baixar à terra, assentar os pés e desarmar, repensar, “retrospectivar”, se é que este verbo existe, o sentido. É estranha esta sensação, de esvaziamento, de nudez, de desprendimento, de desenquadramento racional.
Apetecia-me cair, assentar, ameigar-me onde já fui feliz. Um microcosmos pulmão e sangue.
Mas as tempestades passam, e à sua volta deixam um rasto de destruição. Com elas levam, por vezes, os lugares onde já fomos felizes. Deixam esta sensação de despojamento e de melancolia.
Sinto saudades. Um sentimento de desenraizamento, de pertença estranho, como se algures tivesse deixado uma parte, uma parte significativa, desprezada e maltratada, mas que é nossa.
Deixei.

O cansaço quebra-nos a vigília, a vontade. A nostalgia apodera-se do pensamento. Ou não sabemos muito bem o que se apodera da razão. Sabemos que algo se apodera de qualquer coisa. De repente o mundo muda de sítio e o peito fica pequeno.
Contra isto, uma noite de sono, um sonho, e esperar que o verão passe depressa.

Dizia eu que tenho os quadros no chão, a paixão encerrada num traço, num ponto final.

sábado, 26 de julho de 2008




A cor das paredes

Preparar uma casa para viver pode, afinal, ser muito mais difícil do que à partida parece.
O calvário de pensar, conjugar e escolher coisas, a cor dos móveis, o desenho, pensar a funcionalidade versus necessidade versus estética versus qualidade versos custo.
Pensar dimensões e arrumação no espaço, prioridades, etc., etc., etc..
Se há uns tempos o Ikea era opção, agora que vou ao pormenor, já não é.
Além dos magotes de gente (que eu até família encontrei hoje no Ikea, vá-se imaginar) a qualidade dos materiais e dos acabamentos deixa a desejar e não há nada do que quero, realmente.
Se juntarmos o facto de sermos nós a montar… só pode correr mal.
Assim, segue-se o calvário de ter de desenhar os móveis e mandar fazer, rezando para que no final tudo resulte bem.
A seguir vem a parte dos electrodomésticos e depois os complementos. A juntar ao caos das escolhas, a falta de tempo, por isso, lá para o natal tenho a casa pronta.
Neste momento (dois meses depois) já tem água e luz. Não é mau.

segunda-feira, 21 de julho de 2008


...aparentemente, sou uma sábia coruja!

A coruja é uma ave noturna, símbolo do conhecimento racional. Você é uma pessoa que gosta de estudar e fazer uma reflexão sobre todos os aspectos de sua vida. Seu dia a dia é bastante regrado. Ai, se alguma coisa estiver fora do lugar ou, dando errado. A coruja não gosta de arriscar e investe apenas naquilo que é certo para ela. Aqui vai uma dica: se você mergulhar no seu interior, descobrirá que tem grande percepção do oculto.


ou então

... um cachorro, no bom sentido da palavra, é claro!
O cachorro é o amigo inseparável. Ele não consegue ficar longe dos amigos e adora festas e encontros. É o companheiro fiel que toda pessoa gostaria de ter sempre ao seu lado. Outra característica canina é ser o vigilante de sua casa. Você realmente gosta de tomar conta da sua família e proteger quem está ao seu redor. Coitado de quem invadir o seu espaço.
Entretanto, se você parar de pensar, encontrará uma certa dificuldade em ficar sozinho. O cachorro é capaz de ajudar os outros, mas não sabe lidar direito com os seus problemas. Talvez seja preciso abrir sua conexão ao divino. Afinal, o cão conhece melhor do que ninguém o mundo do Além.

domingo, 20 de julho de 2008


Grand Central - Platform 2, Rob Gardiner

O Lobo nos Sonhos

Não feches a luz
tenho medo dos meus sonhos
medo de entrar pela porta errada.

Nos meus sonhos
os dentes caem-me
e eu fico sozinha a gritar no escuro.

Não feches os olhos
não deixes fechar os meus
não quero ir por maus caminhos

Nos sonhos proibidos
não há ninguém
toda a gente fugiu ou está prestes e fugir
e eu não tenho cabelos.

Não apagues a luz
não quero ficar sem dentes
uma coisa dolorida à deriva no mais profundo escuro.

Nos sonhos mais terríveis
não há sol
e todos me estranham
debaixo de uma lua gelada.

Não feches a luz
não sabes nada, não fazes ideia
o frio que está, a falta de ar,
o brilho que é, o maligno luar.

Sara Monteiro – Big Ode #5

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sigalit Landau, standing on a watermelon in the dead sea, 2004

Queria falar sobre a metamorfose, sobre a mudança mais ou menos profunda, sobre os pontos que se marcam e se espera ultrapassar, sobre o como julgava poder ter, enfim, algum descanso e satisfação uma vez ultrapassados, uma vez realizada a mudança que nos haveria de conduzir a uma metamorfose interior, derradeira e plena de sentidos.

Pontos marcados no horizonte dos dias que anda estão para vir, e um a um, vamos picando, ultrapassando.

Hoje uma amiga falava-me sobre a mudança vertiginosa da minha vida nos últimos meses, mas a mudança há anos que corre, embora algumas vezes vagarosamente. Agora, porém, nota-se mais, pois foi repentina, em vários aspectos.

Por um lado, o resultado de uma espera paciente, desesperante e angustiante, mas que me ensinou a ser perseverante, solidária e honesta, comigo e com os outros, e acima de tudo a ter Fé e a caminhar orientando-me através dos princípios em que acredito. Perdi muita coisa pelo caminho, pois perdem-se sempre coisas quando caminhamos, mas ganham-se outras, e sem querer equilibrar as coisas, pois não se comparam as que perdi às que ganhei, sinto-me triste, mas aliviada e um pouco feliz ao mesmo tempo, por ter chegado ao fim, e ter feito o que estava correcto.

Por outro lado o reconhecimento e a oportunidade de fazer algo que sempre quis, ambicionei, embora não esteja propriamente feliz como imaginaria estar. Acho que estou serena e equilibradamente pronta para mais um desafio, mas não estou eufórica.

Assim, a metamorfose, essa, não sei bem onde está, embora eu comece a chegar à conclusão que, de facto, não sou de grandes euforias e paixões, que tudo em mim acontece de facto com serenidade e segurança, e que os picos de emoções que potenciam uma verdadeira sensação de mudança não acontecem.

Ou isso ou uma fase de hibernação da paixão.

domingo, 13 de julho de 2008

Doris Salcedo - Shibboleth 2007

havia um post para hoje
hoje é já tarde demais, e o cansaço corrói a alma e a vontade
amanhã...
não é sempre amanhã?
é sempre amanhã, e assim o tempo foge e um anjo voa... até às entranhas

sábado, 12 de julho de 2008

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FMI - José Mario Branco

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Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos...
É o internacionalismo monetário!



FMI

Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o mortimor do meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico 'hara-quiri'
FMI Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és 'Sepuldra' tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, 'amanda'-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, zórpila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

José Mário Branco - FMI -
apresentado ao público no Teatro Aberto em 1982.

domingo, 6 de julho de 2008

Charles-Edouard Jeanneret-Gris - Le Corbusier


voltamos às casas, ou não voltamos
quando se habita a ausência e todas as paredes brancas são vazias e neutras
habitamos, não habitamos… questiono-me às vezes, nos momentos em que o reboliço lá fora serena ou se afasta
bastar-nos-ão quatro paredes e um tecto? um chão de cimento?

talvez uma janela, uma porta, dentro, talvez uma cama e um corpo esquecido, boca, língua, discurso…
lembra-me como era, apenas e só como era, a casa, o cheiro, as curvas do pescoço ao peito
uma ideia que seja de como era…

não voltamos
não sei, sequer, o caminho de volta
habitar

talvez sejamos, afinal, deficientes, e as casas não sejam pensadas para nós
nós para as casas
eu
falo por mim


intemporal e de uma beleza extraordinária...

quarta-feira, 2 de julho de 2008



Um certo vazio proporcional, duração larga…
Luz. Espaço. Horizonte.

Hoje falta-me o tempo.

Começo a chegar onde queria, e ultrapasso as metas há muitos anos definidas.
Experimento um sabor novo...
Liberdade, ausência de amarras, do lixo que nos atrapalha tantos e tantos dias, como uma carraça.

Caminhei durante tanto tempo por entre escarpas sombrias sem conseguir alcançar uma linha de horizonte plana, larga, profunda e longínqua…

Hoje uma janela. Luz. Horizonte. Calor.
Simplicidade.

Só.

domingo, 29 de junho de 2008

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há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida

pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
.
Al Berto
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...e viva la España!

domingo, 22 de junho de 2008



Um filme simples, do mais do mais puro que há, de uma beleza extraordinária, de encontros e desencontros... de como por vezes a vida é.
Um crescente de emoções até ao fim, e esta cena deixa-me sempre... é linda...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

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Amanhã Portugal mergulhará de novo na cruel realidade dos dias, agora que acabou o circo do futebol:
o aumento dos combustíveis, o aumento da electricidade, o aumento das tarifas de telemóvel, o aumento dos juros, o aumento dos impostos, os projectos megalómanos do governo que nos hão-de comer a carne e os ossos… enfim… o aumento generalizado do custo de vida e a degradação das condições de vida não só da classe média (porque se as da classe média se estão a deteriorar a níveis que não vi antes, agora imagine-se as das classes mais baixas…).
Enfim, acabou-se o balão de ar do qual viviam os Portugueses ultimamente, distraídos com o colorido da festa.
Mas Portugal terá de aprender assim, porque Portugal é uma criança mimada e embirrenta, pouco esforçada, pouco perspicaz, filha de uns pais anarcas ou pseudo-socialistas, pseudo-intelectuais, que desde há 34 anos viraram novos-ricos à custa da finta pública, do oportunismo e em bom nome e interesse pessoal, com todas as manias e vícios que os novos-ricos ganham e que geralmente estragam a linhagem… A educação... de facto, tão importante…!!!
Agora, esta criança mimada e embirrenta terá de voltar ao inferno, encara-lo de frente e perceber como é que vai sair do buraco. Se chegar a perceber, já que o país fala de alhos, o governo de bugalhos e a criança embirrenta só pensa nos doces que há-de receber, dados, de preferência a cair do céu e sem se ter de esforçar muito a pensar ou sequer a encontrar soluções para ganhar a vida, honestamente, construtivamente, em nome de um colectivo que se chama comunidade/sociedade civilizada…
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domingo, 15 de junho de 2008

Afonso Lopes Vieira, Sem titulo, em catálogo/separata de COLÓQUIO Letras n.º 159/160
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Écloga I
Interlocutores – Lereno e Umbro

Numa noite sem lua,
por negras horas mortas, enquanto na cabana solitária
Umbro ouvia os segredos do silêncio
e o murmúrio tão próximo do Lísio
que corria na sombra,
ao pastor esquecido e desterrado
de súbito aparece
a sombra do zagal
Ilustre e melodioso
entre os de Portugal,
que a Vilante branquista cantara
na cantiga imortal.

Lereno

Voltas enfim aos nossos campos belos,
ao doce vale do Lísio,
Umbro, que há tanto tempo
tu por outros trocaras
para aos nossos formosos esquece-los;
voltas à terra verde, outeiro e vale,
que teus avós amaram,
onde fortes, cantando, trabalharam,
e que este caro rio
de cristalino fio
rega tão fino e claro.
Porém triste te vejo
matando os tristes dias,
que para ti começam à tardinha,
apenas co’o desejo
de matá-los depressa,
e pálido estendendo as mãos geladas
para lume perpétuo de fogueira
que mais que o sol aqueça.

Zagal porque te calas e te encerras
num silêncio de morte
e foges ao convívio dos pastores?
Não amas a beleza destas terras?
Ou não tens olhos para ver zagalas?
Já não há prados, musica e amores?

[…]

Porque vives sozinho e sempre absorto?
se muito bem fizeste
em deixar os amigos mentirosos
aos amigos fieis descoroçoas?
Ah! que os deuses propícios
te mandem um sorriso
e ali se há-de então ver que não és morto.

[…]

Ergue, pois, em voz clara,
que já viste um dia,
o louvor destes campos, destas águas;
se tens mágoas, com elas tece um canto,
se te alivia o pranto
desata-o corajoso;
e aprende sobretudo a amar a terra,
e bem que nunca passa,
que nos dá pão – a graça,
e vinho – essa alegria!

Umbro

Ó Loreno, pastor que tanto admiro
e este prados ilustras com teu nome,
em cujas mãos, tangendo
a melodia azul das pastorais
ficou a frauta rústica de Almeno,
e pastor mais famoso entre os pastores!
Não me fales de amores!
Um dia vi o amor – era medonho:
tinha olhos convulsos de anjo bêbedo
e a mascara do ódio.
Não me fales da terra – é fome e ruína,
o pão bendito? Dá-se aos animais!...
A alegria do vinho?
Ele é luto e pobreza!
E a própria abastança
da portuguesa terra
faz morrer dia a dia,
em pálida agonia
que lhes apaga os olhos,
as crianças de fome que as consome
Juntamente co’o o ranho e co’os piolhos!...

Loreno, despe o trajo
da tua pastoral
e vai, sem arrabil,
como homem apenas,
ver a miséria negra desses campos
onde já não há danças nem cantares
e onde pesa a morrinha melancólica
dos apagadores lares.

- Olha a nossa Bucólica!...

Põe os olhos no chão dessas ribeiras
- por onde os lindos pés
alvíssimos e nus
de Vilante passaram –
e lembra-te que o próprio
chão que sempre foi nosso
e não é desde agora,
pertence ao novo deus que nos devora;
já não é de ninguém, o deus o come,
as cruíssimas coimas
do maioral dos gados lastimosos
o fez perder aos poucos
aos pobres que choravam,
- em vez de irem em cata
dos cajados nodosos!...

Onde estão os cajados portugueses
que algum dia se ergueram
em defesa da honra e da justiça?
Marmeleiros lustrosos
e castanhos robustos,
onde estais, onde jaz adormentada
vossa força elegante
em justiceiros giros,
que não sais de novo
contra quem – o verso é de Os Lusíadas
A despir e roubar o pobre povo?

Ó doce chão da Pátria
vê-lo-ás empenhado em mãos de usura;
já todo o Portugal,
do extremo norte ao sul
(menos a parte inchada de fartura),
pendurado se vê do Prego imenso
e do Prego pendendo se balança
do Minho verde ao Algarve azul!...

Ó casais de Família
que dos avós se herdaram
e que seus netos mais que a vida adoram!
Mimos claros de pobre,
seu orgulho e sustento,
seu gosto e mantimento
e seus lindos amores,
cousa a que tanto quere
que não inveja campos de senhores
nem por eles trocara
a leira que lhe torna
a alma ditosa e avara.
- Vê-los agora à venda e desdenhados,
por vil preço ofertados,
leira amada e perdida!
e às portas dos casais
o lavrador arranca fundos ais
por essas terras cheias
do seu profundo amor,
e sente que lhe chupam sangue e suor
pelas sagradas veias!...

[…]

Olha os rebanhos trágicos que emigram
para campos longínquos,
abandonando os lares
e metendo-se aos mares.
Deixando silenciosas e desertas
sem lar com lume ou boca com cantiga
as aldeias natais
até que o desamparo e a fome nova
os torne a remeter à fome antiga!

Vai ver por essas terras
as mil hospedarias
onde aposentam, para que mais goze,
a grã Ceifeira nossa
que nos ceifa de quarto em quarto de hora,
de sorte que uma guerra
perpétua que devora.
- Senhora (assim lhe dizem)
não façais cerimónia, a casa é vossa
e a fome que aí vai dá festa grossa
ao famoso apetite que nos tendes! –
e olha como definha
à mingua de ar, de luz, de pão e de água,
de comer, de lavar-se, de estimar-se,
de poder respirar alegre fundo
e se torna medrosa ou engelhada
esta gente de Luso
já de forças tão belas
que deu mundo ao mundo
e ao céu novas estrelas.

[…]

Se peregrino fores
também hás-de encontrar
gordíssimos pastores
que te dirão que o prado resplandece
de searas, de vinhas e de flores;
com semblantes risinhos
e ânimos confortados
hão-de mostrar-te altíssimas cabanas
e nas ribeiras os bateis armados
(palácios e batéis
feitos de fome e lágrimas),
mas a esse responde:
- Levanta mil palácios, mil castelos,
se lhe não pões espírito lá dentro
tudo isso é caliça;
arma nas águas mil batéis armados;
se não lhe pões espírito lá dentro tudo isso é sucata!

Vai-te, Loreno ilustre!
vai-te e não me apoquentes,
fora de aqui com a écloga, zagal!
De mentira é que morre Portugal
e tu próprio és mentira:
deixa-me e leva a pastoral e a lira!

[…]

Afonso Lopes Vieria, Éclogas de Agora, Edição do autor, 1935.



Écloga II