terça-feira, 15 de abril de 2008


Eu queria, ó Deus, poder cada manhã, ao elevar para ti o meu olhar, oferecer-te as minhas mãos vazias.
Eu queria, sem usar de nenhum esforço, não ser mais que o receptor da vaga de infinito, e avançar nos caminhos do acaso, apenas levada pelo sopro das vozes interiores.
Eu queria esquecer o que sei e penso, não mais pedir nada, deixar de querer, e acolher com um sorriso as rosas que a tua mão fez cair no meu regaço.

Citação de Jeanne de Vietinghoff em O Tempo, esse grande escultor de Marguerite Yourcenar

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Cruzeiro Seixas - 2005


Ao ver escoar-se a vida humanamente
Em suas águas certas, eu hesito,
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.


Afronta-me um desejo de fugir
Ao mistério que é meu e me seduz
Mas logo me triunfo. A sua luz
Não há muitos que a saibam reflectir.


[…]


Porque eu reajo. A vida, a natureza.
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca de beleza.


[…]

Mário de Sá Carneiro - Dispersão

quinta-feira, 10 de abril de 2008

André Carrilho

Já era tardíssimo para pensar objectivamente no que lhe dizer. Tinham combinado passar uns dias juntos e conversar muito seriamente sobre se valeria a pena continuarem com aquela relação. Ela vinha no comboio das nove: meia hora antes já ele estava na estação, com um raminho de miosótis meio amassados e com um medo terrível de não a conseguir fazer sorrir. Ele julgava-se um dos homens mais confusos do mundo, mais vacilantes. Um desencanto com pernas. E ela parecia afastar-se mais um pouco em cada lua nova, cada vez mais exigente e menos satisfeita: os violinos da separação timbravam-lhe os gestos, cada vez mais ásperos. Houve dias em que a ternura era uma maravilhosa praga de gafanhotos, aos pulos por todo o corpo, a devastar todas as dúvidas que bloqueavam o tango.
[…]
Noutras alturas maior era a queda. Ela não imaginava um futuro para os dois, ele imaginava futuros muito improváveis e impingia-lhe uma data de sonhos em segunda mão. Ele era quase crédulo e de vontade fraca, ela fingia-se forte e capaz de raciocinar sobre os factos, o que é próprio das pessoas fortes.
[…]

JP Simões (contos) e André Carrilho (ilustrações), em O Vírus da Vida - Applefeiçoador Integral em embalagens de duas doses diárias, da editora Sextante.

quarta-feira, 9 de abril de 2008


Andy Kehoe - Humanity Bleeds

Em resposta a um desafio, os livros que mais me marcaram, marcam e acompanham…
Tal como à Lover, também o Principezinho me marcou e acompanha, muitas vezes de memória (pelo menos na ideia/conceito), assim como os de Khalil Gibran (emprestei os “meus” há já alguns anos e nunca mais os vi… já me tinham sido oferecidos e foram-me importantes. Gosto de pensar que acompanham a pessoa a quem já os dei, e que lhe são importantes.
Li Pedro Paixão quando estava na moda, assim como li Saramago mesmo não gostando. Em certas alturas tentei ler mais, mas por uma razão ou outra, que para aqui não interessa, o tempo foi gasto de outras formas e a ler outras coisas.
Também li os pequenos livros de Derek Prince ou os de Brain Wess, entre outros, numa busca incessante de um certo quê de essência, humanidade e identidade. Acabei no livro dos livros, que leio há muito tempo, por vezes, repetidamente e que faz todo o sentido.
Aqui vão então os que me lembro terem sido mais marcantes:

Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley (há uns… 17 anos atrás)

O Preço do Sal – Patricia Highsmith (há uns… 14 anos atrás)

(neste hiato de tempo, cada vez menos tempo para ler, a sério, tão descontinuadamente, que não me ocorre nenhum livro verdadeiramente marcante, pelo menos não com a mesma intensidade que os outros. Apenas umas coisas, mas tb outras tantas outras, mais técnicas, talvez muito enfadonhas, mas que me marcaram muito, se bem que, não no sentido que aqui se fala)

Poesia (completa) – Daniel Faria (de há três anos atrás até hoje)

Bíblia (principalmente os Evangelhos assim como alguns capítulos do Antigo Testamento) (desde há… três anos atrás até hoje, continuadamente)

Passar o desafio... a quem queira simplesmente partilhar, aqui ou noutro local qualquer, pois é isso que importa: a partilha.
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ADENDA: Há um outro, neste "hiato de tempo", que me marcou, verdadeiramente: Portugal Hoje. O Medo de existir, de José Gil, que não consigo agora localizar - devo ter emprestado... (certamente que agora vão começar a surgir outros, mas prometo fugir à tentação de fazer disto uma lista exaustiva e enfadonha)

Maria Serebriakova, sem titulo, 1990.

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O homem lança a rede e não divide a água
O pobre estende a mão e não divide o reino

É tempo de colheitas e não tenho uma seara
Nem um pequeno rebento de oliveira.
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Daniel Faria

sábado, 5 de abril de 2008

Bert Holvast,sem título, Óleo sobre tela.

Arrancaram-me o coração de entre as costelas, à mão cheia.
Cirurgicamente arranquei as entranhas, à medida que a tristeza se ia instalando, a desilusão...
a mágoa...
por fim a descoberta de algo que não sabia existir (porque ainda me surpreendo).
Por fim a dor que ecoa e ressoa dentro do peito sangrento e vazio,

rebentado

escuro

negro.


Não tenho nem palavras…
Acho que não merecia este golpe, mas ainda assim, se o merecesse, acabou.
Acho que assim saldei a dívida que poderia ter, seja lá o que for.

Se me querias magoar, magoas-te. Vences-te.

Fica com os louros e a glória. Isso deve trazer uma enorme felicidade.

sexta-feira, 4 de abril de 2008




Ver num grão de areia um mundo
numa flor um céu profundo;
ter na mão infinidade,
num minuto a eternidade…

O morcego que volita
pela noite, esse acredita;
mas a coruja que grita,
porque não crê anda aflita…

Olha a dor: é um tecido
com a alegria: um vestido
para a alma. Sob a dor
sempre a alegria anda à flor…

Cada lágrima chorada
Torna-se em criança alada…

Balir, uivar – que sei eu?
ondas a bater no céu…

Quem duvida do que vê,
Por mais que faça, não crê.
Olha o sol, se duvidava:
Logo, logo se apagava…

Deus é clarão na amargura
das almas da noite escura;
veste o manto de Jesus
para as que vivem à luz.

William Blake

quinta-feira, 3 de abril de 2008


Tenho a sensação que algo comigo está mal e enquanto descubro quem ou o que está mal, sento-me e tento perceber onde é que errei.
Nunca a minha vida foi tão afectada devido aos traços, mais ou menos profundos, da minha personalidade, segundo consta.
No trabalho, parece que a minha competência no que toca a espírito de equipa e coordenação foi classificada de suficiente, apesar do excelente desempenho da minha coordenação e da minha equipa de trabalho, que superou todos os objectivos com um bom (para não dizer muito bom, pois foi assim que foi classificado) desempenho.
Vou a ver porquê…
Porque eu tenho “uma personalidade muito forte, empreendedora, que imprime aos projectos uma dinâmica muito particular” mas “a minha impulsividade e dinamismo” leva-me a criar “atrito” com certas outras pessoas…
É que eu sou daquelas pessoas que anda sempre a inventar trabalho, e isso incomoda muita gente, eu sei, e isso cria "atrito".
Assim, como sou daquelas gajas que não diz que não a propostas de trabalho, desde que interessantes, que na grande maioria das vezes resultam em grandes dores de cabeça e noites mal dormidas, porque só me fazem propostas para coisas que ninguém lhe apetece pegar, ou com prazos complicados, meio intrincadas e que exigem total dedicação (penso que deve ser para eu lhe “imprimir” o meu “cunho pessoal” e para as levar até ao fim, ultrapassando a inércia e a alergia que certas pessoas têm ao trabalho, mas não têm aos louros), e isso também cria "atrito".
Mas também sou daquelas gajas que chama as coisas pelos nomes, que coloca as questões frontalmente em vez de andar a falar pelos cantos e às escondidas, e como muita gente não gosta ou não lhe convem ouvir, cria-se "atrito".
Não se pense que sou super boa e maravilhosa em tudo o que faço. Não sou. Tenho defeitos, também erro, também crio inércia e ganho alergia a certas coisas, podia ser muito melhor.
Porém, não sei o que quer isto dizer, mas sou forçada a tirar elações, porque algo terá de mudar. Ou a favor do sistema ou contra o sistema. É a fase em que estou, daí a cara feia.

Depois disto também já não adianta entrar pela minha vida pessoal, que aí… a minha vida dava uma verdadeira comédia trágica, se é que isso existe.
Sou é de facto tentada a pensar que na volta sou eu que me estou a transformar numa cabra e não sei (perdoem-me a expressão, que agora nem me reconheço, mas esta é a melhor forma de exprimir o que vai cá por dentro).