domingo, 27 de abril de 2008

Acordei com uma música estranha no ouvido, dentro da cabeça a ecoar e a ressoar, lentamente… o calor e o refrão repetido dezenas de vezes quase me derretiam a massa cinzenta meio “chocalhada” da noite de ontem

Ontem foi um dia especial, o dia em que revelámos, apresentámos, culminámos um projecto com quase um ano de preparação, algo que metodicamente e insistentemente trabalhei e lutei, contra todo o tipo de resistências, estrategicamente, na sombra, contra os interesses individuais e particulares de alguns chicos espertos “poderosos”, até conseguir o que queria, o que é e foi pensado para beneficio de todos, desde há cerca de 6 anos atrás… ou mais.

Ontem o dia deveria ter sido “um dia especial”… um dia para sentir uma enorme satisfação, para sentir adrenalina e euforia, para sentir aquela sensação boa de se ter feito algo importante e realmente “bom”, mas a verdade é que senti… nada. Quer dizer, nada, nada… senti alguma coisa. Satisfação, sentimento de dever cumprido, senti, mas pouco mais.

Acho que me estou a tornar insensível, demasiado dura, demasiado pedra, demasiado séria, demasiado vazia ou cheia de nada.
Ultimamente só falo no vazio. Até parece que a minha vida é um buraco escuro e balofo. Não é. Mas de certa forma é uma vida de faz de conta, de equilíbrios, de conciliação de forças opostas. Se eu fosse cientista e percebesse mais de física do que percebo talvez me pudesse demonstrar que os exercícios que vou fazendo são impossíveis. Como não sou, não sei muito bem o que faço, conto apenas com um instinto trabalhado, deturpado, treinado… reajo e espero.

Diz assim “you cant always get want you want…” e não é a dos Rolling Stones. Fui procurar e descobri que existe um disparate de versões desta música. Não encontro aquela que eu continuo a ouvir aqui dentro, mesmo depois de ter passado pelo duche (onde e durante o qual gosto de pensar, concentradamente), mesmo depois de ter ido às compras e ter ouvido outras no carro e no hipermercado, mesmo depois de ter feito o almoço a ver atentamente o canal história e os noticiários, depois de me ter atirado ao trabalho, durante a elaboração deste texto…

Penso: estarei a ficar esquizofrénica? (tb era só o que me faltava).
Parece uma resposta vinda de um além longínquo a querer convencer-me de algo que já suspeitava.
Muito bem meu Pai. Já percebi a mensagem. Resta agora saber onde é que Tu queres chegar…
Ou eu.

sábado, 26 de abril de 2008



Quero dormir o sono das maçãs,
afastar-me do tumultuar dos cemitérios.
Quero dormir o sono do menino
que queria cortar o coração no alto mar.

Não quero que me repitam que os mortos não perdem o sangue,
que a boca podre continua a pedir água.
Não quero conhecer os martírios que a erva dá,
nem a lua com boca de serpente
que trabalha antes do amanhecer.

Quero dormir um pouco,
um pouco, um minuto, um século,
mas todos saibam que não morri ainda,
que há um estábulo de oiro nos meus lábios,
que sou o pequeno amigo vento do Oeste,
que sou a imensa sombra de minhas lágrimas.

De madrugada, cobre-me com um véu,
porque me lançará punhados de formigas,
e molha com água dura meus sapatos
para que resvale a pinça de seu lacrau.


porque quero dormir o sono das maçãs
para aprender um pranto que me limpe de terra,
porque quero viver com o menino escuro
que queria cortar o coração no alto mar.

Frederico Garcia Lorca

quinta-feira, 24 de abril de 2008

.
.
22 horas e 55 minutos de 24 de Abril de 1974...
.
.
...a Revolução de Abril estava na rua.



[...]
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
[...]




terça-feira, 22 de abril de 2008

Richard e Shana ParkeHarrison - Udergrowth

Por este dias insisto num caminho novo, teimosamente, a ver se me consigo levar a algum lado. É verdade que me sinto só, mas penso que deve ser normal. Faço-me vaguear por caminhos que já percorri com outro encanto, outra vida, difícil de descobrir. Sinto falta.
Na verdade, sinto-me morrer todos os dias.

Não é assim tão mau, penso eu, porque toda a gente vai morrendo todos os dias, mesmo que não sintam. O que é importante é resistir e sobreviver.
Passo o tempo a desvalorizar a pobreza que me rodeia e faz parte de mim, a tornar lógico algo para o qual não consigo encontrar explicação palpável, solução ou remédio. Vivo com objectos velhos e gastos. Já não lhes sinto o sentido.
Sinto-me só neste caminho para um fim incerto.

Penso que tenho de passar por isso. Penso que me basta o que tenho, e que tenho muito mais que muita gente alguma vez terá.
Sinto que o que tenho não me preenche, e pouco ou nada tenho dentro, construo e faço crescer. Que destrui, que reduzi a cinzas, como se tivesse deitado fogo a uma floresta e hoje não restasse mais nada que uma paisagem lunar.
Os dias são cinzentos, ou então, embrulhados em tantas coisas fúteis que nem tempo tenho para lhes ver a cor, lhes respirar o ar, lhes sorver a luz, e sorrir, fazer sorrir.

Inverti todos os valores, sem perceber que certas coisas não se conseguem levar contra a maré, contra vontade, contrariando as fundações e os alicerces, os pulmões e o sentido do sangue nas veias.

Não consegui inverter o sentido do sangue nas veias...
Choro.
Provoquei demasiada dor.
...e o sangue ainda segue o seu sentido.

Não penso nada. Não consigo pensar com esta dor fina no estômago e o gasganete a sufocar-me.
Espero que venha a noite para dormir, afogar-me no vazio, na escuridão, no analgésico para a dor que é o sono.
Amanhã levantar-me-ei, vestirei a personagem do dia-a-dia, todos os acessórios que me fazem parecer colorida e voltarei aos dias cinzentos.
No final, terá perecido mais um dia. Terei feito nada. Minuto a minuto conquistarei o dia, matarei todas as horas até ao fim.
Sou tão um instrumento…

Tento contrariar.
Talvez nem tudo se contrarie, não seja possível contrariar a tudo.
Hoje penso: por quanto mais tempo me manterei sóbria. Quanto tempo mais resistirei à loucura…

Apenas porque o mundo anda às avessas e eu perdi-me o rasto.
Só isso.
Não é grave. Pelo menos achei a ponta do fio.


Robert e Shana ParkeHarrison - Low Tide

segunda-feira, 21 de abril de 2008



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Tenho aflição por tudo o que morre
Como tenho pavor por cada noite que cai.
Como fui esquecer o caminho para fora?

Infeliz que escrevi as sendas da caça.
Comerei erva? Sol? Comerei estepes e estepes
A arder?

Vou-me pôr à mesa e esperar.

Tenho aflição por toda a ausência não anunciada
Acendi a luz por toda a casa e electrifiquei a voz
Agora posso ampliar o clarão dos gritos.

Posso abrir trilhos no fogo: sei o ritmo da mão exacta
Que fez o povo atravessar enxuto o interior da água.

Vou-me sentar à mesa. Vou deixar arrefecer a comida.
Fazer de conta que estou a esperar.


Daniel Faria – Poesia, Edições Quasi, 1.ª edição, Lisboa, Novembro 2003, p.40


sexta-feira, 18 de abril de 2008



hoje deixo, apenas e só, uma imagem, vulgar

faltam-me as palavras
há muito tempo que me abandonaram as palavras
secaram-se
os interstícios onde noutros tempos fluía uma torrente

quinta-feira, 17 de abril de 2008


Las 13 Rosas conta a história verídica de treze jovens raparigas, socialistas, que no final da Guerra Civil Espanhola, e depois da vitória dos nacionalistas franquistas, são apanhadas na teia do novo regime, presas e inocentemente acusadas de terem participado num atentado contra Franco.
Por fim, depois de passarem pelo cárcere e pela tortura, são fuziladas a tiro por uma bateria de jovens soldados.
Uma das linhas condutoras do filme, subtil, implacável, é a presença e o trato da inocência. A inocência em decrescente, quase profética. A inocência das personagens, na ignorância das consequências dos actos, no desconhecimento do que estava para a vir, na impetuosidade dos gestos e dos ideais, no companheirismo e no desespero. Uma inocência que se adivinha trágica a cada minuto que passa, acutilante.
É um filme de época, bem trabalhado do ponto de vista histórico, mas por ventura até de forma atenuada, e ainda assim, muito credível.
Um documento artístico e histórico, para inscrever certos acontecimentos na memória, assimilar, sem floreados ou explicações inocentáveis.
Trata-se de uma das tantas histórias da Espanha, e também do Portugal - porque não dizê-lo - desta época, de certa forma até uma das menores, perante certos outros episódios aterradores da mesma História perpetrados pelo regime franquista, como foi o da matança de Badajoz em 1936, na qual, em apenas dois dias, foram fuzilados cerca de dez mil espanhóis na Praça de Touros de Badajoz, alguns entregues pelo Regime de Salazar a Franco, apanhados pela policia portuguesa ao tentarem fugir para Portugal.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Parece que o enguiço do Sporting se quebrou.
Resta saber por quanto tempo.
Mas há que ter fé!
Afinal, o que distingue um sportinguista de outro qq adepto de outro clube de futebol qualquer, é esta fé, este... “je ne sais quoi" verde...