domingo, 15 de março de 2009




Poema para habitar

A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.

Albano Martins

sábado, 14 de março de 2009



eu vou saber esperar

a maré

o estender da onda as mãos

o encontro dos meus olhos nos teus



quarta-feira, 11 de março de 2009

M.C. Escher - Relativity



Entre teimosia e estupidez vai uma grande distância, mas desta vez, estupidez com as letras todas, sílaba a sílaba.
Eu e a minha mania da responsabilidade social para com os desgraçados que trabalham connosco, mais a responsabilidade acrescida daqueles que têm maior poder decisório, porque com mais poder vem mais responsabilidade e nós temos o dever de nos preocupar e debruçar sobre os problemas das pessoas, o dever de os resolver em vez de “chutarmos para canto”… este foi o meu discurso há 5 meses atrás quando tomei a decisão de puxar para a minha beira uma funcionária que há anos, entre os “diz que disse” e os factos consumados, e os pontapés de serviço em serviço, o mais recôndito possível, tinha, é certo, no mínimo, um grande problema/distúrbio psicológico.

E assim, no primeiro dia das minhas novas funções o meu primeiro problema foi: - o que fazer com aquela criatura? com um historial que tem quase de tudo.
Pois esta cabeça iluminada “embicou” que havia de resolver o problema… porque temos de integrar estas pessoas em vez de os “segregar”e coisa e tal, dar-lhes uma segunda oportunidade, uma que nunca tiveram e que a sociedade nunca lhes deu, porque o que as pessoas precisam de sentir é que fazem parte da sociedade e a pouco e pouco vão-se adaptando, para melhor…

Já aqui... junte-se uma pessoa desequilibrada, com uma grande falta de educação, falta de respeito pelo outro e com uma personalidade forte, com outra, com uma estrutura emocional e psicológica débil, uma personalidade muito fraca e submissa, e garanto que é uma das misturas mais explosivas que conheço, para os outros ,especialmente aqueles com alguma sanidade mental. É tipo o homem maléfico e a máquina demolidora.

Cinco meses depois, e depois de muita confusão, um local de trabalho agradável, onde as pessoas sempre se trataram com respeito e cordialidade está agora à beira de um ataque de nervos, e quando não, à beira de uma baixa psiquiatria em massa, por depressão.

E assim, hoje fiz a minha primeira transferência “à lá minute” ou “à má fila”, uma "segregação" instantânea que me deixa envergonhada.
Para trás ficam os escombros de uma catástrofe que não chegou a acontecer (mas esteve quase). Por pura estupidez, ignorância e infantilidade.
Pensar que se pode mudar uma pessoa com 50 anos, psicótica, proporcionando-lhe um ambiente de trabalho saudável e cordial...

Resta-me segurar o que ficou de pé e mimar aquela gente, rezar para que a coisa volte ao normal em pouco tempo, e o resto do problema, com uma ponta de estupidez, porque a criatura continua a ser um problema, agora, onde está, com menos efeito de contaminação, mas ainda assim um problema na mão…
Por um lado não quero "descartar-me" mas por outro parece não haver alternativa senão "descartar-me"...
Dias dificeis.

Manuel Alvarez Bravo


Temos tanto e tanto medo de naufragar, de nos deixar ir, entrar dentro de uma qualquer ilusão de lugar que não é, tal é o ruído, de fazer um caminho que não tem onde chegar.
Passamos as horas a apanhar papeis. Quando chegamos ao fim do dia, sentamo-nos, de corpo vazio.
Somos altivos. Não nos tocamos. Bombeamos o sangue apenas na medida do necessário. Não deixamos os músculos ganharem força. Não libertamos. Por fim temos medo que a frieza do corpo enrijecido possa contaminar-nos, congelar o sangue e provocar-nos a morte.
Às vezes pergunto-me se não teremos já morrido.

segunda-feira, 9 de março de 2009



Mar, Mar e Mar

Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.

É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios da espuma.
É sangue,
sangue onde outra luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arrastando a noite.
Os cabelos de minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.

Eugénio de Andrade

domingo, 8 de março de 2009




Fecho os olhos e registo a topografia da tua pele. Procuro uma curva perfeita para pousar a cabeça e o corpo e não sentir dor.



É tempo de flores e pólen, do vento sereno e ligeiramente aquecido atravessando as braças que acabam em pequenas e delgadas agulhas, dos sons aqui e ali sustendo o cantar das aves, do desabrochar das flores dos pinheiros bravos que pintam de ouro o verde majestático do pinhal. É tempo dos tojos amarelos e das urzes explodirem em cor, dos primeiros raios de sol a queimar a pele branca.
Um e outro pequeno milagre.

domingo, 1 de março de 2009


Benjamin Button...


A coberto de uma falsa ilusão de envelhecimento/juventude, os sentimentos afloram à superfície da pele, à flor do peito: O ser-se.
Ser-se diferente, porque somos afinal todos diferentes, uns mais do que outros, e ainda assim tabelamo-nos todos pelo mesmo, por baixo. Fazemos esforços inimagináveis para sermos iguais, sem compreendermos que o verdadeiro mistério e riqueza das nossas vidas está na diferença e na capacidade de a entendermos, de a aceitarmos, de a absorvermos, fazermos dela parte integrante das nossas vidas. Que a maior magnificência da nossa breve existência reside na capacidade de nos compreendermos e complementarmos.
Compreendermos que os outros se olham com os seus próprios olhos, tal como nós nos olhamos com os nossos, e que é preciso que compreendamos, aceitemos, porque cada um é como é, e cada um merece respeito pelo que é, debaixo da pele, à superfície da pele, mas acima de tudo, dentro.
A diferença perece assustar-nos... a nós cabe-nos ultrapassar o medo.

Estamos todos sós. Uns saberão melhor que outros. Mas estamos. Há porém quem esteja melhor acompanhado, menos só, o suficiente para não sentir frio, para não deixar cair um véu de escuridão sobre o caminho, para que, partilhando, caminhe de mão dada, sabendo-nos ali, ao lado do outro, sabendo-os ali, ao nosso lado, e assim, noa sintamos menos assustados, sabendo-nos mais fortes, fortes o suficiente para derrubar o medo.

Todos temos/sentimos ausência. Temos vazios sem que percebamos que, muito do que nos falta reside fora, é algo vivo, e está no outro, que se abeira, que se dá, que recebemos, a quem nos entregamos, com quem partilhamos. Que o verdadeiro assombro da existência reside na capacidade de partilha, no cuidar, fazer crescer.

Um filme a fazer-nos lembrar a riqueza que está em ser-se genuíno e simples, e tão extraordinariamente puro, tão extraordinariamente compreensível e bom, e Homem, no sentido pleno de Humanidade, e não ter medo de o ser. Um filme a fazer-nos lembrar o quanto é difícil sê-lo, o quanto temos medo de sermos plenos de sentidos, e verdadeiros, e o quanto é importante ser perseverante.

Uma história de Amor, do Acreditar, do ter Fé, do cuidar, do estar incondicionalmente e fazer da vida do outro, que é nossa também, O caminho, um caminho para a felicidade, a verdadeira, que se há-de auto-alimentar. E por vezes sentimos tanto medo do amor…
Uma história a fazer-nos lembrar que temos de ser fortes e lutar contra o que nos assusta, aproveitando aquilo que nos é dado, porque talvez nada seja dado ao acaso. A querer fazer-nos recordar que aqui e agora é o tempo que nos é oferecido, para viver, e ninguém sabe como será amanhã, e que pouco mais é importante do que o agora.

Uma história sobre o auto-conhecimento, o entender-se o verdadeiro significado da vida, da nossa vida, do caminho.
O compreender-se enquanto indivíduo, a descoberto de qualquer aparência e do acessório e não ter medo de pisar o mato, o caminho, fazer o trilho, o mais certo, o que nos trouxer mais plenitude, mesmo que difícil.


Um filme sobre o ser-se Humano, sobre a importância das nossas escolhas, a lembrar-nos, permanentemente que, aquilo realmente importante somos nós, e nós somos como somos, e que somos nós que fazemos acontecer.
Um filme sobre o quão importante somos, mas apenas se medirmos a partir de nós até ao outro e do outro até nós. A lembrar que gosto de mim, que gosto de ti, que amar é uma bênção e que somos nós que decidimos o que queremos fazer com o que temos para dar, com o tempo que nos resta. Que o destino é apenas um, igual para todos, e a nós só nos é dado a escolher a forma como vamos lá chegar, que nos cabe a nós decidi-lo.


É um filme sobre tanto que eu poderia ficar aqui a escrever sobre um sem número de aspectos, sentimentos que me percorreram a derme e me fizeram rir e chorar, alternadamente, tantas vezes, de tão simples e tão puro. Mas tão extraordinariamente belo que até dói.