quarta-feira, 25 de abril de 2007

O Amor, de Vladimir Maiakovski




Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)

12 comentários:

LR disse...

fantástico! tantos anos depois, voltar a ler um poema de Maiakovski. boa escolha, e sobretudo inusual.

GRAFIS disse...

Confesso que encontrei por acaso a poesia e outros textos a semana passada. Andava a ver outras coisas e num texto qualquer de uma autora que não me lembro agora o nome, encontrei uma breve citação do poema Lílitchka (delicioso) que me fez querer procurar mais…e estou deslumbrada. Tenho andado absolutamente mergulhada no trabalho dele.
Penso que o facto de ser Russo e de não haver muitas traduções não ajuda a promover a divulgar o trabalho dele, senão, não seria assim tão inusual.
Pelo comentário deves conhecer, mas deixo aqui um link onde poderás (ão) encontrar um conjunto significativo de textos: http://br.geocities.com/edterranova/maiapoesias.htm.

serotonina disse...

Um dia quem sabe...

Excelente poema e obrigada pela divulgação!

GRAFIS disse...

Um dia certamente Seretonina...

De nada, maior que o prazer da descoberta é o prazer de partilhar o prazer da descoberta e da degustação.
Bj

LR disse...

maiakovski 'conheci' ha muitos anos e tenho um unico livro com escritos dele. sei pouco. era comunista, creio que se suicidou, talvez fosse homoxessual, e nada disso era ou ficou muito bem visto pelo regime sovietico...

GRAFIS disse...

O pouco que sei li na net, mas sim, parece que se suicidou e parece ainda que foi muito inconveniente ao regime de staline através da sua obra, que não se esgota de forma alguma na poesia. E é de facto uma obra notável que quanto mais conheço mais me apetece conhecer. Quanto ao resto não sei, mas até poderia ser.

Herbert Marcus disse...

Foi reecontrando Maiakovski, meu preferido entre os preferidos, que me decidi a construir um blog (http://terraepoesia.blogspot.com/), cujo nome inspirou-se no poema publicado em seu blog. O Amor, na verdade, é um fragmento de um poema maior intitulado "A Propósito Disto".

O poema também já inspirou Caetano Veloso a fazer uma belíssima canção, com interpretação maior de Gal Costa.

No meio universitário brasileiro dos anos 70 e 80, Maiakovski era bastante conhecido e muitos trechos de seus poemas circulavam em camisetas e cartazes.

Para os portugueses e brasileiros interessados em conhecer um pouco mais sobre o poeta russo aconselho a leitura do livro "Maiakóvski - Vida e Poesia", da editora Martin Claret (2006).

É a biografia desse livro, que inclui a autobiografia Eu Mesmo, feita por Maiakóvski em 1928, a que mais circula pela internet, assim como a coletânea de poesias e as cartas de amor de Maiakóvski à Lila Brik, a quem dedicou o poema A Propósito Disto.

O disto é exatamente o amor do poeta por sua eterna amante, que era casada com um escritor chamado O.M. BRIK (isso responde à pergunta se era ou não homossexual).

Parabéns pelo blog.

Anônimo disse...

Caetano Veloso nunca traduziu O Amor - é uma canção que Gal Costa gravou a partir de uma pequena adaptação feita para uma peça de teatro em SP nos anos 1980. Caetano fez a música, a melodia, se preferirem. O autor da tradução nem me lembro o nome; não é conhecido no Brasil. Nas gravações o crédito é apenas C. Veloso - a partir de um poema de V. Maiakóvski. O número 10 da Editora Perspectiva, Coleção Signos, tem um volume inteiro dedicado a Maiakóvski e está em catálogo - ISBN 85-273-0118-0 - Em 2006 estava na 7a. edição com uma reimpressão. Gostaria, se possível, de saber de quem é esta tradução.

De Passagem disse...

Anônimo, pena eu ter visto isso só hoje mas fica aqui a informação. A tradução é de de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman. :)

Newton Barra disse...

Conhecem esta versão musicada? É de autoria do brasileiro Caetano Veloso, cantada por Gal Costa.

https://www.youtube.com/watch?v=cBxMFb8igus

Tomás Pimenta disse...

Olá por favor alguém sabe o nome desse poema em Russo?

Tomás Pimenta disse...

Olá por favor alguém sabe o nome desse poema em Russo?