domingo, 15 de junho de 2008

Afonso Lopes Vieira, Sem titulo, em catálogo/separata de COLÓQUIO Letras n.º 159/160
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Écloga I
Interlocutores – Lereno e Umbro

Numa noite sem lua,
por negras horas mortas, enquanto na cabana solitária
Umbro ouvia os segredos do silêncio
e o murmúrio tão próximo do Lísio
que corria na sombra,
ao pastor esquecido e desterrado
de súbito aparece
a sombra do zagal
Ilustre e melodioso
entre os de Portugal,
que a Vilante branquista cantara
na cantiga imortal.

Lereno

Voltas enfim aos nossos campos belos,
ao doce vale do Lísio,
Umbro, que há tanto tempo
tu por outros trocaras
para aos nossos formosos esquece-los;
voltas à terra verde, outeiro e vale,
que teus avós amaram,
onde fortes, cantando, trabalharam,
e que este caro rio
de cristalino fio
rega tão fino e claro.
Porém triste te vejo
matando os tristes dias,
que para ti começam à tardinha,
apenas co’o desejo
de matá-los depressa,
e pálido estendendo as mãos geladas
para lume perpétuo de fogueira
que mais que o sol aqueça.

Zagal porque te calas e te encerras
num silêncio de morte
e foges ao convívio dos pastores?
Não amas a beleza destas terras?
Ou não tens olhos para ver zagalas?
Já não há prados, musica e amores?

[…]

Porque vives sozinho e sempre absorto?
se muito bem fizeste
em deixar os amigos mentirosos
aos amigos fieis descoroçoas?
Ah! que os deuses propícios
te mandem um sorriso
e ali se há-de então ver que não és morto.

[…]

Ergue, pois, em voz clara,
que já viste um dia,
o louvor destes campos, destas águas;
se tens mágoas, com elas tece um canto,
se te alivia o pranto
desata-o corajoso;
e aprende sobretudo a amar a terra,
e bem que nunca passa,
que nos dá pão – a graça,
e vinho – essa alegria!

Umbro

Ó Loreno, pastor que tanto admiro
e este prados ilustras com teu nome,
em cujas mãos, tangendo
a melodia azul das pastorais
ficou a frauta rústica de Almeno,
e pastor mais famoso entre os pastores!
Não me fales de amores!
Um dia vi o amor – era medonho:
tinha olhos convulsos de anjo bêbedo
e a mascara do ódio.
Não me fales da terra – é fome e ruína,
o pão bendito? Dá-se aos animais!...
A alegria do vinho?
Ele é luto e pobreza!
E a própria abastança
da portuguesa terra
faz morrer dia a dia,
em pálida agonia
que lhes apaga os olhos,
as crianças de fome que as consome
Juntamente co’o o ranho e co’os piolhos!...

Loreno, despe o trajo
da tua pastoral
e vai, sem arrabil,
como homem apenas,
ver a miséria negra desses campos
onde já não há danças nem cantares
e onde pesa a morrinha melancólica
dos apagadores lares.

- Olha a nossa Bucólica!...

Põe os olhos no chão dessas ribeiras
- por onde os lindos pés
alvíssimos e nus
de Vilante passaram –
e lembra-te que o próprio
chão que sempre foi nosso
e não é desde agora,
pertence ao novo deus que nos devora;
já não é de ninguém, o deus o come,
as cruíssimas coimas
do maioral dos gados lastimosos
o fez perder aos poucos
aos pobres que choravam,
- em vez de irem em cata
dos cajados nodosos!...

Onde estão os cajados portugueses
que algum dia se ergueram
em defesa da honra e da justiça?
Marmeleiros lustrosos
e castanhos robustos,
onde estais, onde jaz adormentada
vossa força elegante
em justiceiros giros,
que não sais de novo
contra quem – o verso é de Os Lusíadas
A despir e roubar o pobre povo?

Ó doce chão da Pátria
vê-lo-ás empenhado em mãos de usura;
já todo o Portugal,
do extremo norte ao sul
(menos a parte inchada de fartura),
pendurado se vê do Prego imenso
e do Prego pendendo se balança
do Minho verde ao Algarve azul!...

Ó casais de Família
que dos avós se herdaram
e que seus netos mais que a vida adoram!
Mimos claros de pobre,
seu orgulho e sustento,
seu gosto e mantimento
e seus lindos amores,
cousa a que tanto quere
que não inveja campos de senhores
nem por eles trocara
a leira que lhe torna
a alma ditosa e avara.
- Vê-los agora à venda e desdenhados,
por vil preço ofertados,
leira amada e perdida!
e às portas dos casais
o lavrador arranca fundos ais
por essas terras cheias
do seu profundo amor,
e sente que lhe chupam sangue e suor
pelas sagradas veias!...

[…]

Olha os rebanhos trágicos que emigram
para campos longínquos,
abandonando os lares
e metendo-se aos mares.
Deixando silenciosas e desertas
sem lar com lume ou boca com cantiga
as aldeias natais
até que o desamparo e a fome nova
os torne a remeter à fome antiga!

Vai ver por essas terras
as mil hospedarias
onde aposentam, para que mais goze,
a grã Ceifeira nossa
que nos ceifa de quarto em quarto de hora,
de sorte que uma guerra
perpétua que devora.
- Senhora (assim lhe dizem)
não façais cerimónia, a casa é vossa
e a fome que aí vai dá festa grossa
ao famoso apetite que nos tendes! –
e olha como definha
à mingua de ar, de luz, de pão e de água,
de comer, de lavar-se, de estimar-se,
de poder respirar alegre fundo
e se torna medrosa ou engelhada
esta gente de Luso
já de forças tão belas
que deu mundo ao mundo
e ao céu novas estrelas.

[…]

Se peregrino fores
também hás-de encontrar
gordíssimos pastores
que te dirão que o prado resplandece
de searas, de vinhas e de flores;
com semblantes risinhos
e ânimos confortados
hão-de mostrar-te altíssimas cabanas
e nas ribeiras os bateis armados
(palácios e batéis
feitos de fome e lágrimas),
mas a esse responde:
- Levanta mil palácios, mil castelos,
se lhe não pões espírito lá dentro
tudo isso é caliça;
arma nas águas mil batéis armados;
se não lhe pões espírito lá dentro tudo isso é sucata!

Vai-te, Loreno ilustre!
vai-te e não me apoquentes,
fora de aqui com a écloga, zagal!
De mentira é que morre Portugal
e tu próprio és mentira:
deixa-me e leva a pastoral e a lira!

[…]

Afonso Lopes Vieria, Éclogas de Agora, Edição do autor, 1935.



Écloga II

8 comentários:

RV disse...

"levanta mil palácios,mil castelos, se lhe n pões espirito lá dentro tudo isso é caliça"

deixa -me dar te os parabéns p colocares este texto aqui, simplesmente p não o conhecia e estou rendida, é fantástico, mais ainda se pensarmos na época q foi escrita;

agora basta me ir procurá lo!curiosamente hoje tb foi uma tarde de descobertas literárias, vou postá las,

bjs

GRAFIS disse...

sempre actual, actual na época (e mal sabia o poeta do que ainda estava para vir - até ali só tinha assistido ao inicio da coisa)e, se repararmos (e não é necessário muito) actual nos dias de hoje.
tens um link aqui nesta última foto de Afonso L. Vieira, para a 2.ª écloga, que está integralmente transcrita (a primeira fui eu que transcrevi hoje de manhã, mas só o que me pareceu importante no contexto que queria dar, de modo que não está completa) com a vantagem de estar anotada.
Já lá vou.
bjs

RV disse...

oi,

não consigo!
é onde na foto? já fiz...
no Écloga II? tb já fiz...

:(

GRAFIS disse...

tens razão. não está a funcionar.
reparo já isso e vou colocar o link no écloga II. desculpa.

RV disse...

engraçado, ele seria óptimo em parceria com o Zeca Afonso,o António Gedeão, o José Fanha e outros tantos dentro do género c o qual mt me identifico, o género do anti-passivismo, anti-inércia, m q curiosamente são os alvos sp mais vísiveis de se abater;
embora em prefira mil vezes viver assim, mesmo q no limbo do que render me ao q não me interessa;
o meu pai uma vez disse me q achava q eu não pertencia a este país, e em parte concordo, m dp existem as outras coisas q ainda me fazem ficar por aqui,

sol

GRAFIS disse...

bom... acho que tens de ler mais de alv porque acho que esta obra é a única do género. De resto o Sr. é mt dado à contemplação :)
bjs

serotonina disse...

Tenho que ler a obra deste Senhor. Nas férias, dedicar-lhe-ei algum tempo.

GRAFIS disse...

sim sim, embora seja mt difícil encontrar os livros dele (acho que só mesmo em alfarrabistas). mas vale a pena :)