quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Vlastula


Hoje, durante um raro momento de inspiração em que me propus fazer o jantar em casa dos meus pais, correndo de tacho para tacho, comecei a ouvir uma reportagem na TV acerca de um novo modelo económico, no minimo interessante.
O Consultor de Empresas Paulo Vieria de Casto partiu da análise ao tipo de gestão económica realizada pelos sem-abrigo para nos propor, e aos gestores portugueses, dez lições de economia para uma nova forma de gerir, mais consciente e responsável, mais humana.


Genial!

Retenho apenas algumas ideias. Clicar AQUI para ver o texto integral.


Primeira lição: o dinheiro é uma não realidade

Ninguém é vítima do mundo, mas sim da forma como o percebe. Nas organizações passa-se exactamente o mesmo. Se eu tiver vinte e cinco milhões de Euros, o modo como os uso determina o seu verdadeiro valor. Assim, ao contrário do que diz o povo dinheiro não faz dinheiro, na verdade o valor do dinheiro depende directamente da capacidade que cada um tem de o aplicar de forma útil.

[…]


Segunda lição: você vive do que recebe, mas constrói a vida com o que dá

[…]

Aceitar a dádiva como forma de participar na construção de um mundo onde todos tenham lugar é um sentimento que está em qualquer de nós, independentemente do credo que escolhemos. Para os judeus a caridade é uma responsabilidade da comunidade. Para os católicos toda a humanidade tem direito ao usufruto dos bens. O mundo islâmico dá o exemplo através do zakah, entregando 2,5% do lucro aos mais pobres, ainda para os muçulmanos só a caridade purifica o lucro obtido. Para os hindus o Homem veio ao mundo de mãos vazias, regressando sempre de mãos vazias, dar é para estes a única forma de purificação, pelo que só as acções filantrópicas darão bom karma. Igualmente, o desapego aos bens materiais da filosofia budista faz com que qualquer acção tenha como intenção gerar felicidade aos outros e a si próprio.

Será previsível um crescimento de mercado no que à solidariedade diz respeito. Para além de assegurar a sobrevivência básica dos mais necessitados, surgirão novas responsabilidades. Desde logo dar a si mesmo, ou à sua fonte de inspiração, abrindo caminho a um maior compromisso com a espiritualidade, na senda de modelos de aplicação não periférica à responsabilidade de se ser humano, passando a cumprir compromissos estratégicos baseados em valores essenciais à solidariedade, à responsabilidade inclusiva, à compaixão, à espiritualidade, ao estar grato, à paz interior. Esta será a oportunidade que faltava para o surgimento de uma nova economia.

[…]


São valores como a bondade, a compaixão, a intuição, a dimensão espiritual, a auto-realização, o desapego, isto de entre outros activos intangíveis, que futuramente motivarão as relações de proximidade entre agentes organizacionais.



Terceira lição: no futuro a economia será interdependente


Na rua a economia de parceria parece não resultar, isto ao contrário do conceito de interdependência. Acredito que no futuro o sucesso das grandes corporações dependerá desse entendimento. Aliás, a internet é já um bom exemplo disso, nos casos em que prova ser possível divergir dos princípios meramente capitalistas, onde existe exclusivamente uma partilha de meios, mas raramente de fins. Assim como na rua, nos negócios esta ideia implica que todos são, contemporaneamente, a um mesmo momento provedores e tomadores, clientes e fornecedores. Isto é já o que acontece com alguns negócios na internet.


[…]


Para entender de forma completa a ideia da interdependência nos negócios o ser humano terá de voltar à fonte, ao sopro vital, indo além do auto-conhecimento, ou seja à auto-realização.



Quarta lição: o centro vital do Homem estará na auto-realização


Fernando Pessoa dizia que conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez; e isso é certo. Ao contrário da ideia avançada pela sociedade do conhecimento, onde se mostrava central conhecer, a proposta agora será a de auto-realizar. Uma outra mudança que parece irreversível é a que concerne à medida da satisfação, passando esta a ser calculada na economia interdependente, fundamentalmente, com base em níveis de auto-realização de todas as partes da relação; e não mais vendo a individuo como a medida de todas as coisas.



Quinta lição: a economia não terá de ser sustentável, mas sim inclusiva


A realidade que se vive na rua fez-me perspectivar, ainda, o próximo passo, uma nova doutrina económica aparentada a um entrepreneurial capitalism elevado ao seu expoente máximo de responsabilidade inclusiva, onde assim como na natureza, também na economia assistiremos ao retorno à natural evolução criativa, em que encontraremos “todos” que são maiores do que a soma das suas partes. Para além de jogarmos com ideia de interdependencia, passaremos a reconhecer no factor impermanencia uma variável estratégica de oportunidade, cabendo à gestão de topo potenciá-la, ao invés de a tentar isolar, como se de uma bactéria nociva se tratasse. A mudança é – afinal - o maior bem de todos os homens e mulheres.


Sexta lição: a nova lógica de se ser humano


Não será suficiente conhecer a responsabilidade como caminho para um mundo mais justo. Lembre-se que conhecer o caminho não é a mesma coisa que trilhá-lo até ao seu termo. Garanto-lhe que há alguém muito especial que o espera no final do caminho: você!

Na dimensão dos valores humanos não existe a verdade dos outros. Tratando-se de uma terra sem caminho, viver nesta certeza será assumir a maior responsabilidade das nossas vidas. Aceitar a importância de tais valores nas relações de mercado, obriga a que cada um de nós seja um cientista interior, cuja sua maior valência será a de experimentar a verdade e, consequentemente, estar disponível a aceitar a mudança como a única certeza. A verdade, desde a sua origem, revela-nos o ponto onde nada está escondido, onde só a profundidade do essencial será revelado. Então, seja você mesmo!


Sétima lição: ser o exemplo que queremos ver nos outros


Apesar de se tratar de uma visão meramente pessoal, acredito que todos teremos a agradecer o facto de poder dar o melhor de nós próprios. Mas, quantos de nós estamos dispostos a isso?! Uma nova consciência para o mundo dos negócios terá, necessariamente, que passar pela responsabilidade de, como diria Ghandi, sermos o exemplo que queremos ver nos outros. Mais uma vez dar, neste caso dar o exemplo.

[…]


Oitava lição: só aquele que vê o invisível poderá realizar o impossível


Does more money buy you more happiness? Esta é a principal questão a que pretendeu dar resposta a análise publicada pela Universidade de Navarra, Espanha. Uma das conclusões deste estudo vai no sentido de declarar uma notória impotência do dinheiro quando o colocamos em contraponto com a felicidade.

[…]


Nona lição: a inspiração transformadora é o único recurso infinito da Terra


[…]

O que falta então para romper com algumas das nossas rotinas? Acreditar que, para além de desejável, é possível. Seguindo a máxima de São Francisco de Assis, deveremos começar por fazer o que é necessário; depois fazer o possível; e, sem dar por isso, estaremos a fazer o impossível. Parece simples!



Décima lição: aprender mais com a natureza, e menos com a civilização

Entre aqueles que vivem na rua, e da rua, muitos foram os que já se aperceberam que os limites da sua actividade obedecem, agora, a um novo paradigma e a novos públicos. Da necessidade que um crescente número de pessoas tem em ser solidária/ interdependente/ responsável, simplesmente dando. Como resposta a esta oportunidade encontramos, agora, formas mais criativas de enfrentar o mercado, resultando desta constatação o atendimento a novas propostas de valor. Esta nova vaga valoriza essencialmente o dar responsável, com sentido, relegando para um segundo plano a solidariedade meramente material.
Uma moeda ou um sorriso...

[…]


Está pois lançado o mais nobre desafio de sempre aos gestores de empresas: a gratuitidade.
Santo Agostinho acreditava que os milagres não acontecem em contradição com a natureza, mas apenas em contradição com o que conhecemos desta.
Em conclusão, gostaria de afirmar a minha crença que no futuro da economia terá mais a aprender com a natureza, ela própria interdependente, e menos com a civilização.

Paulo Vieira de Castro
Consultor de empresas, Director do Centro de Estudos Aplicados em Marketing, Instituto Superior de Administração e Gestão-Porto. Aprender noções de economia e gestão foi o objectivo de um trabalho junto dos sem-abrigo, em Junho passado, no Porto. Este tema foi primeriramente publicado na HSM Management (Brasil) e na revista Marketeer (Portugal). O relatório surge agora, em Ciência Hoje, na forma de «Dez lições para uma nova economia»

PS:
OK! Talvez não sejam apenas umas breves ideias ou paragrafos transcritos do texto original... mas um quase "testamento". Porém, o texto integral tem muito mais.
Recomenda-se!


12 comentários:

S-Kelly disse...

Trata-se na verdade mais de um tratado, que de um texto, no entanto não deixei de o ler com muita atenção! É curiosa a forma analítica que este consultor tem da vida, da natureza, da forma como nos damos aos outros e ao mundo, é igualmente curiosa a forma ping-pong na construção destas mesmas análises. Ao fim de tantos séculos continua-se a evocar Stº Agostinho, as doutrinas do Ghandi, a sabedoria popular, os versos de Fernado Pessoa e a fazer de tudo isto uma amálgama de dicas, um melting pot, em busca do melhor caminho, das melhores soluções stago.
No fim deste discurso todo, onde se encontra a solução para os sem-abrigo?

GRAFIS disse...

A ideia do tratado não é demonstrar a solução para os sem-abrigo, mas aprender com eles.
A lógica é esta: os sem-abrigo saem fora da nossa noção/realidade de vivencia na medida em que, para muitos de nós, é impossível sobreviver sem dinheiro, sem emprego, sem uma casa, sem uma série de bens materiais que usamos diariamente, mas a verdade é que eles vivem (ou sobrevivem). As prioridades, as relações, os objectivos de vida dos sem-abrigo são completamente diferentes dos "nossos", e o valor que eles dão às coisas, o que retiram delas, é também diferente.
O que ele fez foi estudar como é que eles sobrevivem durante anos com tanta privação, porque eles sobrevivem com praticamente nada, e aplicar essa formula, ou método, para pensar um novo modelo económico. Um tratado para reflectir em tempo de crise…
Quanto à solução para os sem-abrigo, como para os desempregados, os marginalizados, os mais desfavorecidos, mas também para a classe média-baixa / média está aí também, na minha opinião, na segunda lição, quarta, e desta quase até ao fim: Humildade, inclusão, responsabilidade, especialmente a começar pelo topo (sempre considerei que quanto mais alto a função/cargo, maior a responsabilidade, seja técnica-financeira seja social e humanitária), ser o exemplo que queremos ver nos outros, etc., etc., etc.

orquídea disse...

Boas noite!
Quando escreveste "Genial!" primeiro pensei que estavas a ser irónica. Cedo percebi que não e até consigo entender o porquê, no entanto... a mim faz-me sempre um bocado de confusão alguém de fato e gravata, bem instalado no confortável sofá de um escritório aquecido pelo ar-condicionado, vir falar de inter-ajuda ou interdependência de de sem-abrigos... Vou ler com maior atenção todo o artigo, mas se calhar porque não creio assim tanto na capacidade do ser humano para os actos gratuitos de forma persistente e mantida no tempo... duvido da sua eficácia. Ah! E quanto à Internet e os seus negócios, o que não faltam são empresas a ir à falência e são poucos, muito poucos os que sobrevivem no modelo "open-source/free". Até a Wikipedia colocou uma petição online para recolha de fundos. Alguém tem sempre de pagar a factura. Há ordenados a pagar, simples.
Quantos aos sem abrigos que sobrevivem...e quantos sucumbem ao isolamento, à doença, à indiferença, à loucura? Não sei... tenho de ler mais, provavelmente... mas tenho dúvidas que o Homem resista aos apelos do seu próprio bem-estar... É pena? É.
Beijinhos

orquídea disse...

Voltei, apenas para mais uma ideia ( :) ) Auto-realização está no topo de uma pirâmide definida desde há muito tempo (Maslow). Sentir-se realizado consigo mesmo pela superação de desafios e gosto por ajudar os outros vem apenas quando as nossas próprias necessidades estão satisfeitas, sejam estas de sobrevivência, sociais ou de auto-estima. Claro que há inter-ligações e permeabilidades entre estes diversos níveis de motivação para a acção, mas mantenho a minha dificuldade em acreditar... na generalização desta atitude de crença que o outro me vai dar pois espera antecipadamente que eu e também... :(

GRAFIS disse...

pois... lá estamos nós a duvidar... :)
Bom… por partes:
Nem tanto ao mar nem tanto à terra…
Ex: Microsoft: Office custa 600 euros. Muita gente usa ilegalmente por que é mt caro. Se custasse 200 aumentaríamos exponencialmente o número de licenças pagas e nem precisávamos de recorrer ao OpenOffice. Se custasse 100 então nem custaria nada comprar e pouco seriam os que iriam piratear… Outros poderão funcionar na base da gratuitidade, e por aí fora… Desonestidade… Vista, que não tem certas funcionalidades do XP que hoje são já essenciais e que estão a dar dores de cabeça…

Eu não considero que tenhamos todos de nos despojar de tudo o que temos para dar aos pobres. A maior parte da minha responsabilidade/cuidado com os outros está em ajudar a pescar e não em dar peixe… um pouco como Jesus Cristo, lembras-te?
Acho que tem de haver estratificação social. O que eu já não acho saudável é que esta estratificação seja construída de forma selvática. Tem de haver equilíbrio.
Assim, o senhor empresário economista engravatado até pode estar no seu gabinete, com o seu ar condicionado, e almoçar e jantar todos os dias no XL ou no Olivier, e quanto a mim até pode ter um Bentley à porta, e um Porche Cayenne na garagem, e um TT para os fins-de-semana, desde que este seja responsável e solidário para com os seus funcionários/colaboradores, desde que estes ganhem, proporcionalmente o que ele ganha, e sempre que ele ganha todos ganhem, desde que ele estabeleça um mínimo de condições de vida a proporcionar aos que ganham menos, que tem de ser digno e desafogado, desde que eles ascendam da mesma forma que ele. Quer isto dizer que, em vez de ele enriquecer brutalmente, enquanto os seus colaboradores marcam passo, terá de enriquecer menos para que possa arrastar a riqueza da base até ao topo e abranger a todos, como se a riqueza se tratasse de um vestido, e se vestissem todos com ela, mas sem que os tornozelos fiquem a descoberto. Isto tb responsabiliza significativamente a base, mas é assim que tem de ser. Cuidar e responsabilizar.
Depois os gastos responsáveis… para quê ter os três carros quando um chega perfeitamente. Um carro é só um carro. Então vamos ao segundo passo… e por ai fora.
Tb pode criar um sub-sistema de saúde, básico, para funcionários e família, comparticipar em medição, nas despesas de alimentação durante o horário de trabalho, e por aí fora, um pouco como fazem algumas empresas nórdicas e um pouco como algumas empresas portuguesas faziam desde inicio do século XX – CUF é um exemplo, embora tenha outros aspectos negativos. Veja-se o IKEA por exemplo.
Eu poderia continuar… mas tb sei que infelizmente o dinheiro fala mais alto, porque o objectivo para a esmagadora maioria das pessoas é o dinheiro, não são elas próprias e o próximo, não é a auto-satisfação. O objectivo é ter, ter, ter, não é a satisfação de proporcionar e ultrapassar as nossas capacidades e alcançar a satisfação pessoal, não é compartilhar, não é disfrutar…
:) … estamos em desacordo…

GRAFIS disse...

quanto ao segundo comentário, nem sempre... por vezes a auto-satisfação vem de conseguirmos ultrapassar obstáculos e desafios especialmente quando as nossas necessidades não estão satisfeitas, quando conseguimos fazer o impossivel, quando persistimos, e aguentamos, e resistimos até quando quase ninguém já acredita e desespera... e conseguimos... :)

e tb, por vezes, apesar de também estarmos medidos no mesmo saco, e prescindimos de nós para ajudar os outros...
Garanto-te que qd conseguimos a auto-satisfação vem ao cubo e dura tempos infinitos...

esse é tb o exemplo dos sem-abrigo.

orquídea disse...

ai moça...não sei se estamos em desacordo. Talvez...ou então é uma questão de crença. Afinal acreditas bem mais na bondade e generozade dos Homens, ou pelo menos tens mais esperança do que eu... Provavelmente tal te fará sofrer mais do que eu em vários momentos, mas certamente que estarás mais perto da Verdade e do Sonho do que eu...
O que digo é que o ser humano é egoísta, invejoso, dependente de satisfações bem básicas e terrenas. Na maior parte dos casos "eu" só adquiro o que quer que seja se isto me trouxer alguma vantagem. Enquanto o sujeito não vir vantagem em adquirir ou em fazer o que quer que seja, não se mexe. É assim no mercado, e o marketing sabe-o bem. esta satisfação interna pode ser "apenas a imagem que projecto para os outros, a vaidade, se quiseres, o estatuto...
O office mesmo a 200€ é pirateado, sabes porquê? Porque o pessoal gosta de se gabar de que é o maior pirata lá do bairro. A satisfação? gabirú do grupo! (lol)Nem sempre é uma questão de dinheiro, mas de alimentar auto-estimas ou frágeis egos, soberba e outras que tais.
Até as doações para caridade podes descontar no IRS. Porquê?
Eu cá só tenho um carro e à medida das minhas necessidades e dos que de mim dependem.

Mas pronto... com tudo isso, acho que vale a pena sempre ir fazendo a nossa parte. tens a sorte de ter mais fé do que eu :)

GRAFIS disse...

somos todos "bons selvagens" quando nascemos... :)

eu diria que, como Rousseau, o Homem é bom, por natureza. O meio em que vive, a sociedade, é que acaba por o desviar e corromper, muitas vezes definitivamente. Assim, eu sei que é muito difícil entender uma concepção de vida assim. Nós tb somos o produto dessa sociedade, mais ou menos contaminados por ela, ou seduzidos, emaranhados. Mas tb não é razão para não querermos contrariar a tendencia, vive-la assim, e mesmo que seja apenas em alguns aspectos, naqueles que são possiveis podemos fazer a diferença. Acredito em mudanças e sei que elas são, grande parte das vezes, lentas... fazer a nossa parte. isso mesmo.

orquídea disse...

...então... estamos em desacordo :)

Pois que tb me veio à memória Rousseau, mas não creio que o Homem seja bom por natureza e que a sociedade é que o corrompe... o que me leva a outras paragens mais longínquas, como África, e a várias expedições datadas do mundo da Antropologia, na busca do tal "bom selvagem". O resultado foi a desilusão uns aninhos mais tarde, pois que em qualquer sociedade, o ser humano é essencialmente igual a qualquer outro e vive no e do conflito interno, de impulsos e repressões, de desejos e inibições, culpas e medos, anseios e carências em busca de preenchimento.
A sociedade somos nós que a fazemos, e se é o que é é porque somos o que somos. Torná-la algo externo a nós parece-me sacudir água do capote. Nisto creio que estamos de acordo.
O que digo ainda, é que "não vem nenhum mal ao mundo" viver na crença que é a expectativa de troca e reciprocidade que nos move essencialmente. Pois que esta troca não significa necessariamente de bens materiais. Na maior parte das vezes, no que é essencial, não o é. Se faço algo porque este algo me trás uma qq gratificação, não acho que isto faça de mim uma "má" pessoa ou menos caridosa. O ponto, creio, é viver segundo o princípio de que não basta querer para ter nem que os outros estão ao meu serviço e caprichos. Se eu me disponho a dar ao outro o melhor de mim, e se todos viverem sob este princípio então acabamos por sair todos mais ricos e com o melhor. Aí estarei a amar...

Somos seres de partilha, de encontros e de trocas. De afectos de vontades e de bens também. mas somos seres em conflito e muitas vezes em carência e aflição. Não é fácil, e já que é preciso começar por algum lado que comecemos em nós mesmos, resolvendo as nossas angústias e percepções distorcidas do outro.

GRAFIS disse...

Iam a África em busca do "selvagem" como se o facto de serem sociedades mais primitivas as fizesse mais "puras" que a nossa, a evoluída.
Mas não é por serem primitivas que as pessoas não aspiram ao poder desde pequenos, à posse, ou se tem menos conflitos, ou menos vulneráveis à corrupção.

Eu estou a falar no "fundo" das pessoas, no "fundo" de uma criança, naquilo que todo o ser humano tem qd nasce, pq é a partir daí que começa a interiorizar noções como posse, poder, mentira, etc. Porque as crianças absorvem o que vêm/sentem, aquilo que lhes é ensinado, aquilo que acontece em seu redor.
Se absorvessem outros valores seria diferente. Não quer dizer que não apreendessem a posse, o poder, o medo, etc.. Apreende-lo-iam de outra forma, até porque o valor que lhes atribuiriam seria outro, e usariam essas noções de outra forma.

orquídea disse...

Ok... tribos "primitivas" à parte então :). Concordo com o que dizes. Deixa-me então colocar de outra maneira: tenho dúvidas em relação aos nossos gestores e empresários e várias vezes me parecem que os economistas assertam menos do que as cartas da Maya :)

Já te disse em outros momentos que acredito que as pessoas são na maioria e essencialmente boas pessoas. Mantenho o que disse. É assim que, sem dar muito conta deste processo, que parto para novos encontros e também assim acho que é mais fácil cumprimentar com sorrisos com quem nos cruzamos. Depois... logo se vê. na maior parte das vezes a um sorriso nos respondem com outro sorriso, por isso mantenho a minha fé nas pessoas. Não tenho assim tanta fé nas matilhas, grupos, agregações, cooperações e afins... pois creio que estas são capazes de desencadear o pior de nós mesmos.
Dito isto, claro que só posso concordar contigo que "de pequenino é que se torce o pepino" na boa direcção é claro e com os exemplos das nossas próprias acções. O mundo que eles acreditarão, a tal percepção do mundo é em primeiro lugar o que virem espelhado nos nossos olhos de adultos! Sabendo no entanto que não nascemos "tábula rasa", certo?

Paulo Vieira de Castro disse...

Boa noite Grafis, agradeço a forma inteligente como entendeu o meu esforço.

Estive na rua a aprender lições de economia e liderança com os sem abrigo. Desde logo percebi a importância de um simples esforço: mudar de perspectiva. Quantos de nós estamos dispostos a fazê-lo?

Na rua percebi que eles simplesmente mudaram de perspectiva; deixaram de querer estar certos para passar a querer estar em paz.. Neste contexto o que será para a economia mudar de perspectiva? Simples: deixar de pensar tanto no fim do mês e pensar mais no fim do mundo.

Mas, a mudança começa por nós, tem de ser interna e isso para muitos será trabalho para uma vida.

Foi fácil separar o átomo, contudo tem-se mostrado impossível acabar com o preconceito.. seja na forma de vestir, seja na forma de estar, seja na forma de pensar.. afinal o mundo somos nós.

Grato, Paulo Vieira de Castro