domingo, 1 de março de 2009


Benjamin Button...


A coberto de uma falsa ilusão de envelhecimento/juventude, os sentimentos afloram à superfície da pele, à flor do peito: O ser-se.
Ser-se diferente, porque somos afinal todos diferentes, uns mais do que outros, e ainda assim tabelamo-nos todos pelo mesmo, por baixo. Fazemos esforços inimagináveis para sermos iguais, sem compreendermos que o verdadeiro mistério e riqueza das nossas vidas está na diferença e na capacidade de a entendermos, de a aceitarmos, de a absorvermos, fazermos dela parte integrante das nossas vidas. Que a maior magnificência da nossa breve existência reside na capacidade de nos compreendermos e complementarmos.
Compreendermos que os outros se olham com os seus próprios olhos, tal como nós nos olhamos com os nossos, e que é preciso que compreendamos, aceitemos, porque cada um é como é, e cada um merece respeito pelo que é, debaixo da pele, à superfície da pele, mas acima de tudo, dentro.
A diferença perece assustar-nos... a nós cabe-nos ultrapassar o medo.

Estamos todos sós. Uns saberão melhor que outros. Mas estamos. Há porém quem esteja melhor acompanhado, menos só, o suficiente para não sentir frio, para não deixar cair um véu de escuridão sobre o caminho, para que, partilhando, caminhe de mão dada, sabendo-nos ali, ao lado do outro, sabendo-os ali, ao nosso lado, e assim, noa sintamos menos assustados, sabendo-nos mais fortes, fortes o suficiente para derrubar o medo.

Todos temos/sentimos ausência. Temos vazios sem que percebamos que, muito do que nos falta reside fora, é algo vivo, e está no outro, que se abeira, que se dá, que recebemos, a quem nos entregamos, com quem partilhamos. Que o verdadeiro assombro da existência reside na capacidade de partilha, no cuidar, fazer crescer.

Um filme a fazer-nos lembrar a riqueza que está em ser-se genuíno e simples, e tão extraordinariamente puro, tão extraordinariamente compreensível e bom, e Homem, no sentido pleno de Humanidade, e não ter medo de o ser. Um filme a fazer-nos lembrar o quanto é difícil sê-lo, o quanto temos medo de sermos plenos de sentidos, e verdadeiros, e o quanto é importante ser perseverante.

Uma história de Amor, do Acreditar, do ter Fé, do cuidar, do estar incondicionalmente e fazer da vida do outro, que é nossa também, O caminho, um caminho para a felicidade, a verdadeira, que se há-de auto-alimentar. E por vezes sentimos tanto medo do amor…
Uma história a fazer-nos lembrar que temos de ser fortes e lutar contra o que nos assusta, aproveitando aquilo que nos é dado, porque talvez nada seja dado ao acaso. A querer fazer-nos recordar que aqui e agora é o tempo que nos é oferecido, para viver, e ninguém sabe como será amanhã, e que pouco mais é importante do que o agora.

Uma história sobre o auto-conhecimento, o entender-se o verdadeiro significado da vida, da nossa vida, do caminho.
O compreender-se enquanto indivíduo, a descoberto de qualquer aparência e do acessório e não ter medo de pisar o mato, o caminho, fazer o trilho, o mais certo, o que nos trouxer mais plenitude, mesmo que difícil.


Um filme sobre o ser-se Humano, sobre a importância das nossas escolhas, a lembrar-nos, permanentemente que, aquilo realmente importante somos nós, e nós somos como somos, e que somos nós que fazemos acontecer.
Um filme sobre o quão importante somos, mas apenas se medirmos a partir de nós até ao outro e do outro até nós. A lembrar que gosto de mim, que gosto de ti, que amar é uma bênção e que somos nós que decidimos o que queremos fazer com o que temos para dar, com o tempo que nos resta. Que o destino é apenas um, igual para todos, e a nós só nos é dado a escolher a forma como vamos lá chegar, que nos cabe a nós decidi-lo.


É um filme sobre tanto que eu poderia ficar aqui a escrever sobre um sem número de aspectos, sentimentos que me percorreram a derme e me fizeram rir e chorar, alternadamente, tantas vezes, de tão simples e tão puro. Mas tão extraordinariamente belo que até dói.

4 comentários:

S-Kelly disse...

O que é surpreendente neste filme, e para além da questão do Ser, é sem dúvida a noção de oportunidade. A oportunidade nos dias, nos momentos que fazem esses dias, nas pessoas que completam esses dias e essas vidas. Oportunidade de fazermos também o nosso caminho, e acima de tudo a oportunidade do encontro com o amor. Depois, há vincadamente a capacidade de nos sabermos dar ao outro e de darmos tudo ao outro. O saber dar sem sequer pensar em receber.
Este filme para além de ser uma lufada de ar fresco, é também uma grande bofetada de luva branca nas nossas próprias vidas!
Dá que pensar, e muito...
Ainda bem que gostaste :-)

Um abraço amplo e infinito

orquídea disse...

Mas que fantástica reflexão fizeste aqui deste tão belo filme! Quando o vi faltou-me sesta capacidade para expressar tanta coisa que agora tu aqui conseguiste maravilhosamente. Obrigada :)

A propósito de oportunidades, recordo uma frase dita no filme, creio que tb por Benjamin - "A vida é feita de oportunidades, também daquelas que perdemos" (ou qq coisa assim parecido)

Beijo.

GRAFIS disse...

S-Kelly

É como dizes, aceitar o que nos é dado, quando algo, ou quase tudo, nos diz que por ali há um caminho, o caminho, quando sentimos que é aquilo que queremos ou precisamos, quando todos os caminhos parecem ir dar àquele lugar que sabemos, e acreditamos. Devemos acreditar.
Sobre o dar sem esperar receber, acho que não haverá outra forma de dar. De outro modo não se trata de uma dádiva. Tratar-se-ia de um empréstimo e esses são laços fantasmas, os que nos assombram os dias. Benjamin não era um homem assombrado. Acho que ninguém gosta de ser um fantasma, mas ele há tantos por aí que nem percebem que o são...
Dá que pensar, uma e mais outra vez.
Um abraço grande e um beijo.


Orquídea

Acho que tens razão, até as que escolhemos não aproveitar ou as que perdemos. Por vezes até precisamos de perder umas quantas para chegar àquela, a genuina.
O tempo precisa, por vezes, de correr, e nós tb precisamos de amadurecer, esperar até à altura certa. E haverá uma altura certa para tudo, muito embora tenhamos de saber reconhecer o momento certo.
E nós sabemos sempre quando aceitar a oportunidade ou não.
Essa, diria até, é a verdadeira oportunidade: o saber reconhecer.

Beijo.

Maria Papoila disse...

"Vamos aproveitar o concerto de Lisboa da Simone e Zélia Duncan para expressar o nosso apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo usando o nó branco. Faz o teu e usa-o no concerto. Divulga entre os teus amigos".
(www.whiteknot.org)