segunda-feira, 21 de abril de 2008



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Tenho aflição por tudo o que morre
Como tenho pavor por cada noite que cai.
Como fui esquecer o caminho para fora?

Infeliz que escrevi as sendas da caça.
Comerei erva? Sol? Comerei estepes e estepes
A arder?

Vou-me pôr à mesa e esperar.

Tenho aflição por toda a ausência não anunciada
Acendi a luz por toda a casa e electrifiquei a voz
Agora posso ampliar o clarão dos gritos.

Posso abrir trilhos no fogo: sei o ritmo da mão exacta
Que fez o povo atravessar enxuto o interior da água.

Vou-me sentar à mesa. Vou deixar arrefecer a comida.
Fazer de conta que estou a esperar.


Daniel FariaPoesia, Edições Quasi, 1.ª edição, Lisboa, Novembro 2003, p.40


6 comentários:

Lover disse...

Querida Grafis, vir aqui é realmente de ficar com o "gasganete a sufocar"...com todo o respeito, o post posterior não está aberto a comentários, mas não resisto a dizer-lhe que está fabuloso!
bj

GRAFIS disse...

Acabamos por encontar sempre algo "fabuloso" na tragédia não é?
Por fim, até acabamos por rir de nós próprios, quem sabe se para evitar que choremos...

Voltamos à terceira pessoa?
Não entendo... Olhe que se formos pela questão da idade, possivelmente, a Sr.ª ganha-me em alguns pontos :)
Bjs

Lover disse...

lol, desculpa Grafis...:) ok...eu tenho 35, e sou uma miúda!:) escreves muito bem! Obrigada pelo comment que deixaste, é bom ler-te!
boa noite miúda e volta sempre;)

GRAFIS disse...

ah! a diferença não é muita, afinal. Duas miúdas, portanto.

Lover disse...

duas miúdas, portanto! ;) de espirito pelo menos :))
e que até parece que até acabam por se rir delas próprias, quem sabe se para evitar que chorar...
fabuloso ;)

GRAFIS disse...

De espírito e de idade mesmo, pelo menos por mais uns 15/20 anos.